sábado, 25 de maio de 2013

Um dia assim


Sexta–feira, dia 24 de maio

Chego no Salão, hoje é o dia da beleza. Três da tarde, faço minhas unhas com a Teca e o que mais precisar... Lá encontro com minha amiga Deolinda e papeamos bastante, no meio de tudo isso chamo o Carlos, ele é o cabeleireiro e dono do salão, e mais ou menos sigilosamente e meio constrangida confesso: “Carlos, todas as vezes que me sinto com problemas existenciais, pego uma tesoura e faço um estrago no meu cabelo,  queria que você desse um jeito...”. Ele olhou para mim e bem piedosamente falou: “Sabe o que faço nos meus dias de problemas existenciais? Eu pego a tesoura  e minhas clientes saem felizes daqui”. Tipo Eduard mãos de tesoura... Achei ótimo!

Olha que me senti linda, acho que o espelho do Carlos já é preparado para elevar a autoestima de suas clientes. Bem na frente do espelho havia um tubo bem grande de laque e não pude acompanhar todo o processo de repaginação, mas quando pedi licença para retirar aquele tubo me senti de alma nova.

Saí correndo do salão, já era quase noite e ainda precisava passar no mercado pois Terezinha Romano ia jantar na minha casa... Tínhamos combinado que ela levaria o antepasto e a sobremesa e eu cuidaria do resto. Como estava frio, iria fazer uma bela sopa de abobora, com peras e queijo gorgonzola, deliciosa e bem apropriada! Fiquei encarregada de comprar algumas garrafas de vinho tinto, andei xeretando algumas sugestões no face do meu amigo Lenine Marcato, ele tem uma forneria em Guarulhos, cidade bem perto de são Paulo e pelas suas postagens, pratos que engordam só de olhar e vinhos que dão agua na boca... Sempre ótimas dicas!


Ontem a temperatura estava bem fria, da varanda do meu apartamento o céu era da cor de um jeans bem escuro e as nuvens borravam a escuridão. Conversa vai, musicas antigas, não sei porque sempre opto por escutá-las, não sei, mas fiz varias viagens no tempo, hora Tietê, lembrei das minhas lindas primas Ilze Maria, Ilka e Ieda - nos nossos tempos de carnaval... Hora Ubatuba, hora Guarulhos, amigos e lembranças... Senti uma infinita saudade da Bebel, minha irmã - partilhamos desses momentos juntas. Terezinha Romano veio de Táxi, ainda bem, conversamos até o galo cantar. 


domingo, 19 de maio de 2013

Jamanta e Bico Fino


Jamanta é um cachorro Vira-Lata, todo preto e tem esse nome porque é um tanto gorducho. Cativante e amigo adora se deitar na soleira da barbearia de seu Manuel, lá todo cliente que entra o trata de forma peculiar, pois Jamanta recebe as pessoas com seu rabo cumprido abanando alegria e participa das conversas atento. Seus olhos pretos parecem uma jabuticaba, quando ouve algumas palavras - comida, vamos dar uma volta e como está bonito - faz festa e mais festa... Parece que entende! Simpático, fica horas no seu banho de sol, Jamanta adora quando percebe que o assunto é ele, aí ele entorta o olhar e levanta as orelhas se fingido de morto. Seu Manuel comentou outro dia que era frequente o sumiço do “moço”, às vezes sumia por mais de uma semana, principalmente ás sextas-feiras... Passava o fim de semana sem noticias e se preocupava. Mas Jamanta era mesmo do mundo, ele já tentara leva-lo para sua casa, em vão, o danado dava um jeito e sumia...

Bico Fino, era assim que Dona Marlene chamava seu cachorro de estimação, todo preto e com  focinho cumprido e pelos arrepiados na cabeça, fazia o maior sucesso. Bico Fino sabia do seu carisma e conseguia ganhar muitos ossinhos e brinquedinhos, tinha vida de paxá, era o rei da casa, não podia chegar alguém que ele colocava sua barriga para cima... Mesmo sendo vira–lata se portava como lorde. Ganhava uma atenção de filho, melhor ração, banho e tosa... Estava sempre limpo e perfumado. Como era esperto, seus olhinhos, as vezes só o branco dos olhos ficava a mostra e entendia tudo. Bico Fino tinha certas manias, adorava dar umas voltas, deixava Dona Marlene quase louca, sumia por horas, mas sempre no final da tarde regressava, parecia descansado e feliz.

 Um belo dia Bico Fino sumiu mesmo, não voltou no horário que sempre retornava. Nesse dia Dona Marlene não pregou os olhos, melhor dizendo, chorou até não ter mais lagrimas. No dia seguinte começou sua peregrinação, andou por toda vizinhança, mas ninguém sabia do tal Bico Fino. Tentou ir mais longe, foi quando deu de cara com o danado, ele assim todo bonachão no seu banho de sol... Furiosa deu de cara com seu Manuel, que contava as últimas peripécias do seu Jamanta: “Veja o Jamanta ficou a noite toda dentro da barbearia, dormindo como anjo, nem se levantou quando fechei a porta, parecia que queria  mesmo ficar por aqui”, era o papo do dia.

Marlene entrou na conversa: “Esse cachorro é meu, meu senhor!”. “Não é possível, senhora, ele passa todas as tardes comigo, é meu companheiro!”. Bem se via que a disputa estava começando e lá o cão fingia que não tinha nada com isso. Por horas e nada de uma decisão, Seu Manuel vermelho e suado não entregava o Jamanta, dona Marlene já tinha tentado todas as artimanhas para que o Bico Fino a acompanhasse... Na confusão foi juntando plateia... Uma loucura! O que fazer?

 Do outro lado da rua um Padre que observava a história resolveu se intrometer: “Por que não deixam como está?”. Marlene e Manuel torceram o nariz, o cão num ato repentino se levantou e começou a lamber o padre e abanar o rabo, foi como se dissesse, alguém aqui tem sensatez. Depois disso, como Bico Fino acompanhou Marlene até sua casa. Na manhã seguinte como Jamanta, esperava Manuel na porta para abrir a barbearia. Disso tudo surgiu uma nova amizade, Seu Manuel sempre recebia a visita de Dona Marlene, ela gostava de levar para ele seu doce predileto, ambrosia...  Começou a pintar um clima!






sábado, 13 de abril de 2013

Ela é dona do jogo


Estou no aconchego dos meus pensamentos, a água morna da torneira lava a espuma do detergente, então nos meus devaneios, sinto uma baforada que me assusta, é Zenaide... Chega nervosa para contar: “Menina, Marco Aurélio intrometeu um soco no sínico do meu prédio, sabe?!” Me conta assim, como se eu conhecesse os protagonistas da história!

Zenaide - com todo respeito - vai contando e eu formando imagens... Nesse momento seu rosto se transforma na cara de um espantalho - aqueles que espantam os pássaros em hortas e jardins - é que seus olhos arregalados, seus cabelos despenteados e a vassoura que traz nas mãos me levam à história do "Magico de Oz".

Ela tem sempre uma novidade, até já viu disco voador.  Limpa a casa, narrando tudo que está fazendo: “Vou virar sua mesinhaaaa!”; ”Vou ‘alimpar’ o ‘vridro’!”; “Vou molhar suas ‘prantinhas’ pra você ficar contenta.”...

Nunca acerta meu nome, me chama de Cleotilde o tempo todo... Outro dia perguntou por que eu não me chamava Cleópatra, já que era mais bonito... Ontem, na hora de se despedir, me viu desformando um pudim e toda sorridente comentou: “Nossa, Cleotilde  tá aspirada hoje!”.

Aspirada fico com as historias da “mulé”, me contou até que um dia estava no ponto de ônibus e um tarado a “futucou”. Indignada perguntei: “O que você fez?” “Ah, Cleotilde, nada, ele era bonito!”. Ai, ai, ai... Coisas de Zenaide!

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Visita ao senhor



A sala está na penumbra, sento ao seu lado, sua mão ainda forte se entrelaça com a minha, há apenas a sintonia das nossas almas. Pela tela da televisão apagada, o reflexo em branco e preto faz com que eu o observe. O relógio de Parede toca suas seis badaladas, hora dos Anjos.... Percebo que ele reza baixinho sua oração predileta: Ave-Maria.

Me lembro dele moço, declamando para nós sua primeira poesia, insisto para ele declamar novamente, por um momento ele se empolga: “Pelo escuro da rua estreita ninguém me vê... Não me lembro mais!” E eu digo: “E o lampião e o vaga-lume que enroscou no seu sapato?”. Repete: “Não eu mão me lembro, faz tanto tempo!”

Um dia me disse da fragilidade da vida: “A vida é um fio delicado...”. São os acordes tocados em seu Violoncelo que ecoam agora em sua memória... Sua canção predileta - “Reverie”, de Shumann - que, nas cordas desse instrumento, o deixa nostálgico... “As vezes sinto o afago das mãos da minha mãe no meu rosto e a voz do meu pai”, me confessa timidamente. Diz ainda da saudade da sua esposa e dos filhos, sua maior conquista, frutos colhidos que se multiplicaram.

Há uma dor em seu olhar, posso escutar sua voz embargada, seu choro triste... Vem a noite, nasce o dia, ele é um homem cansado da vida, uma árvore centenária com raízes fincadas no solo, não há mais água para sevá-lo.... Sem frutos para colher.


Me diz, agora, o que ele espera da vida: “Espero todos os dias o relógio tocar as seis badaladas, hora dos Anjos... Espero que eles venham em revoadas, com suas flautas e harpas. Quero voar e ser novamente feliz!”.

sábado, 30 de março de 2013

Feliz Páscoa!!!



Sexta-feira Santa, lembro do céu desse dia, era sempre cinza, era um dia mudo, sem música. Mamãe dizia: “Hoje lembramos o dia da morte de Cristo!”. O sábado trazia resquícios da sexta–feira da paixão, o céu não estava totalmente claro, mas a morte de Cristo ainda era motivo de silencio. Manhã de Domingo, papai nos acordava de maneira afetuosa, falava assim: “Olhem o que o coelhinho trouxe!”. Nós pulávamos da cama, nossos olhos brilhavam... “O meu é vermelho”, mas tinha azul, verde, amarelo.... uma porção de ovos coloridos! E pelo caminho cenouras mordidas, não é que o coelho esteve por lá!

Papai gostava de nos reunir nessa data. Íamos para o quintal de casa, era um quintal cheio de árvores, Acácia Mimosa era a sua preferida. Acho que suas flores amarelas e seu perfume davam um toque especial e lá fazíamos uma pequena Missa, ao som do violino tocando Ave-Maria, ficávamos em silencio, escutando as palavras saídas do coração do meu pai, era singelo esse momento, nos confraternizávamos.

Mamãe colocava uma toalha branca com uma estampa bem delicada, minúsculas rosinhas rosas de miolinhos amarelos, sobre a grama ainda molhada de orvalho... Mamãe caprichava, nos servia um delicioso café da manhã. O perfume do café atraia até os passarinhos, que atentos esperavam as migalhas dos pães e restinhos de bolo.

 Olhos azuis da minha mãe se divertiam, olhos azuis que riam... É o que eu tenho mais saudade, desse rizo maroto nos olhando enquanto corríamos, corríamos entre as copas das arvores e os raios do sol! Assim eram nossos domingos de Páscoa!

sexta-feira, 15 de março de 2013

O pão nosso de vários tempos



“A canoa virou, por deixar ela virar, foi por causa da vovó que não soube remar!” Fim de tarde, os meninos subiram da quadra onde estavam jogando bola. Enrico e Enzo são meus netos, Enrico tem seis anos e o Enzo tem três, os dois são filhos da minha filha mais velha, Ana Carolina.

 Então, Enrico e Enzo subiram suados e esfomeados: “Vovó quero pão na chapa!”. Llá fui eu fazer pão na chapa... Hum que delicia! Quando cheguei na sala com os pãezinhos devidamente “chapados” - sim pães na chapa, a frigideira precisa estar bem quente, se coloca manteiga (gosto muito da manteiga Aviação), manteiga derretida, então lá vão os pãezinhos abertos para dentro da frigideira, por uns minutinhos e ficam deliciosos! Enquanto os pães estão sendo preparados, água para ferver, pois pão na chapa combina perfeitamente com um café feito na hora!

Escuto a Carol comentar com os filhos: “A Vovó fazia todo dia pão na chapa para o tio Lu, tia Cacau, tia Ia e para mim... A gente adorava! Viajei na saudade, fui parar na rua Apinajés... Meus filhos eram pequenos, tempo bom, me visualizei entrando na sala com os famosos pães na chapa para as crianças, na época chamávamos de canoinhas. Toda manhã minha casa se transformava em uma verdadeira lanchonete, os quatro ficavam sentados no sofá assistindo os desenhos da época aguardavam o café da manhã. Cada um escolia o que queria comer, preparava um mingau  de chocolate , as vezes fazia bolinhos de chuva... Era tão bom que hoje, contando assim para vocês, senti o cheirinho do pão fritinho na manteiga... Fui mais longe, muito mais longe nas minhas lembranças...

Eu era pequena, minha avó Clotilde também fazia pão na chapa para nós netos. Eu também adorava! Agora me vem o barulhinho da manteiga derretendo, que delicia!  Volto na infância, no tempo que se foi, mas as lembranças habitam meu coração... Refletido no espelho do guarda-louça da vovó Beatriz, minha outra avó. Vejo os pães doces e a manteiga Aviação, a embalagem era uma lata, precisava usar até um abridor para abrir... Sinto o perfume desse tempo, tempo de descobertas.

“Nós queremos uma valsa , uma valsa para dançar, uma valsa que fale de amor, como aquela dos patinadores. Vem meu amor, vem meu amor, um passinho pra cá, um passinho pra lá,  a mamãe quer dançar com o papai.” Lembranças da vovó tocando piano, tempo de tantos sonhos!

sábado, 2 de março de 2013

Amor predileto




Quero falar de uma coisa.... Uma vez, há muito tempo atrás, conversava com Ana Maria e Luís Fernando... Acho que há uns dez anos atrás.... Lembro bem da cena!

Estávamos jogando conversa fora, deitados na minha cama, nós três. Eu era uma eterna pedinte de cafuné e a Ana Maria, sempre muito disponível para esse carinho gostoso... Fazíamos uma troca, uma hora ela me maquiava e outra hora eu a maquiava, tudo virtual, a base cor terra-montanha, pó de Arroz branco nuvem e lá íamos inventando moda... Tudo para receber um carinho no rosto. Lembra filha? Sinto muita saudade desse tempo passado, mas marcado para sempre!

 O Lu, o próprio aprendiz, me falava da sua empresa, Viação da licença... Seus ônibus e seus sonhos de madrugar para conhecer São Paulo, era para ele uma alegria conversar com os motoristas, seus amigos Zé, Bahia, Mineiro... Pegava ônibus e ia até o ponto final, depois contava todo feliz das viagens e dos amigos que fazia.

Bom voltando para o cenário dessa historia, veio um assunto um tanto questionador. O Lu comentou que a Maria Claudia, Cacau, é a filha predileta da mamãe. Virou a Ana Maria e disse não , o filho predileto é você Lu. Minha curiosidade me fez ligar na mesma hora para Cacau , ela estava voltando da faculdade, e pelo celular perguntei: “Cacau, quem é meu filho predileto?” Ela respondeu: “A Ia!” Liguei para a Carol e fiz a mesma pergunta: “Filha, qual é meu filho predileto?” Ela me respondeu na cara dura: “Sou eu!”. Achei o máximo sua segurança do meu amor!

Foi divertido saber dessa avaliação tão íntima de cada um dos meus filhos, porém, sem concordar, pois acho que amo de forma idêntica. Cada um é amado de forma única, mas na mesma intensidade... O amor é individual, mas seguramente igual!!!

Hoje, estávamos na casa do meu pai e surgiu mais uma vez esse assunto, pois meu pai tem seis filhos. Eu comecei a contar para ele e a Carol como eu havia sido conquistada, digo assim, qual foi o momento que eu realmente fui fisgada pela flecha do amor materno. Cada filho foi olhado de forma, não apenas pelo fato de ser mãe e ser cumpridora desse amor inerente, mas quando me dei conta do que cada filho me trazia... Um olhar, um sorriso, um abraço e que não poderia mais viver sem a história pessoal de cada um deles. Relembrei também a resposta que ela me deu na ocasião... Ela morreu de rir e me disse assim: “Não acho mais que eu sou sua filha predileta, seu filho predileto é o Lu!” Como ser mãe é difícil!

Bom, perguntei para ela: “Filha de quem você gosta mais, do Enrico ou do Enzo?” E tenho certeza que sua resposta foi sincera e de coração: “Amo os dois da mesma forma!”. A minha resposta também é a mesma: Mamãe ama seus filhos e agora mamãe virou avó... E o que dizer desse sentimento? Amo meus filhos e netos!