Entro pelo jardim. Em volta do portão, primaveras enfeitam-no com uma coroa de cores rosa e roxas, vislumbro samambaias verdes ainda molhadas de orvalho da madrugada, fazem-me sentir o cheiro gostoso da terra, cheirinho de chuva. A varanda era um lugar de encontros, cantávamos, ríamos muito... Cresci ao lado de um rádio Telefunken. Naquela época os rádios ficavam dentro de um móvel que servia como adorno para decoração, era bonito... Bem, preciso voltar ao jardim.... Muitas rosas coloridas, margaridas brancas com miolinhos amarelos, parecia um paraíso! No quintal havia um bosque, para mim, ele era encantado. Mangueiras, jabuticabeiras, carambolas, até mamão havia! Nesse bosque cheio de frutos e cheiros, brincávamos de super-heróis. Os esconderijos eram sempre embaixo de alguma árvore, um sonho de tão bom que era.
No quintal, um galinheiro, cheio de galinhas bem branquinhas e um galo forte e furioso, só meu pai podia entrar... Galo metido!
Vou entrar em minha antiga casa agora, na saudade de um tempo que é ainda marcado pelo mesmo relógio que badalava e, hoje, ainda badala na sala de jantar de meu pai. Badala ao som da Ave Maria que me faz viajar para esse tempo que ficou em algum lugar.
Minha mãe fazia um programa na Rádio de Pirajuí às 18 horas e eu não perdia, começava assim: primeiro, uma música clássica, linda!; depois, ela declamava uma poesia com sua voz melodiosa, que saudades!
Aconchego-me nesse silêncio e procuro ficar bem perto do rádio, que só existe em minha memória e tento sentir que estou novamente em 1962.
No mais, tudo mudou, não existe nada que me traga a voz feliz da minha mãe.
Nessa minha viagem pelas ondas de um rádio, ou apenas de olhos fechados, sinto a cada dia mais e mais a sua presença, mãe. Quero brindar com você essa luz que me tem mostrado e dizer o quanto te amo....


