sábado, 25 de junho de 2011

Nas ondas do rádio


Entro pelo jardim. Em volta do portão, primaveras enfeitam-no com uma coroa de cores rosa e roxas, vislumbro samambaias verdes ainda molhadas de orvalho da madrugada, fazem-me sentir o cheiro gostoso da terra, cheirinho de chuva.  A varanda era um lugar de encontros, cantávamos, ríamos muito... Cresci ao lado de um rádio Telefunken. Naquela época os rádios ficavam dentro de um móvel que servia como adorno para decoração, era bonito... Bem, preciso voltar ao jardim.... Muitas rosas coloridas, margaridas brancas com miolinhos amarelos, parecia um paraíso! No quintal havia um bosque, para mim, ele era encantado. Mangueiras, jabuticabeiras, carambolas, até mamão havia! Nesse bosque cheio de frutos e cheiros, brincávamos de super-heróis. Os esconderijos eram sempre embaixo de alguma árvore, um sonho de tão bom que era.
No quintal, um galinheiro, cheio de galinhas bem branquinhas e um galo forte e furioso, só meu pai podia entrar... Galo metido!
Vou entrar em minha antiga casa agora, na saudade de um tempo que é ainda marcado pelo mesmo relógio que badalava e, hoje, ainda badala na sala de jantar de meu pai. Badala ao som da Ave Maria que me faz viajar para esse tempo que ficou em algum lugar.
Minha mãe fazia um programa na Rádio de Pirajuí às 18 horas e eu não perdia, começava assim: primeiro, uma música clássica, linda!; depois, ela declamava uma poesia com sua voz melodiosa, que saudades!
Aconchego-me nesse silêncio e procuro ficar bem perto do rádio, que só existe em minha memória e tento sentir que estou novamente em 1962.
No mais, tudo mudou, não existe nada que me traga a voz feliz da minha mãe.
Nessa minha viagem pelas ondas de um rádio, ou apenas de olhos fechados, sinto a cada dia mais e mais a sua presença, mãe. Quero brindar com você essa luz que me tem mostrado e dizer o quanto te amo....

 

sábado, 18 de junho de 2011

Quando encontrei minha colega de colégio

Num período da infância de meus filhos, quando morávamos num prédio da Rua Apinagés, havia uma turma ótima, querida até hoje.
Meus filhos cresceram lá, a porta da minha casa não ficava trancada, um entra e sai de criançada o tempo todo, teatrinho, coreografias musicais, lanchinhos, uma delícia inesquecível.
No meu andar tinham quatro apartamentos. Dois eram ocupados por pessoas mais velhas, o meu com quatro crianças e o da minha vizinha de porta Bel, com três crianças. Um andar cheio de barulho, alegria e muito agito. Nossos vizinhos mais velhos nos “adoravam”, melhor dizendo, nos “suportavam”. Um desafio viver em paz com eles...
Foi aí que descobrimos uma maneira gentil de compensar, ao menos, uma de nossas idosas vizinhas, caridade mesmo! Ela passou a ser até mais carinhosa com nossas crianças. Perto do nosso prédio havia uma Igrejinha bem acolhedora e todo sábado uma bonita missa nos enchia de um amor bem grande pelo próximo e esse próximo escolhido foi dona Ana Rosa. Oferecíamos carona a ela que ia toda feliz, acolhida e confortável à igreja conosco.
Quando voltávamos para casa continuávamos conversando no hall do nosso andar, foi numa dessas nossas conversas que dona Ana Rosa contou-nos que tinha estudado no mesmo colégio que eu. Fiquei eufórica, descobri que ela era, além de minha vizinha, também uma colega da mesma escola... Agora ela seria até mais simpática com todos nós, fiquei bem satisfeita. Tentei encontrar professores comuns, partilhar momentos que nos unissem ainda mais.
Nada se encaixava. Ela não conhecia nenhum professor meu e eu também não conhecia nenhum dela; Achei estanho e perguntei: “Em que ano a senhora estudou no colégio Santana?”. E com sua voz bem própria de quem já tinha mais de setenta me falou: “Estudei em 1925!”. Em seguida me fez a mesma pergunta: “E você?”. Pela primeira vez o nono andar ficou em silêncio, era evidente demais a diferença entre nossas idades. Eu estudei lá no colégio em 1974,  portanto quase cinco décadas depois...
Foi difícil nos controlarmos para não rir, nossa turma já se conhecia bem e só no solhamos e nos contivemos. Será que Dona Ana Rosa percebeu nossa vontade de rir?

Rir faz bem para a alma e o coração


sábado, 11 de junho de 2011

A cara da mãe


Coisa que não esqueço e vocês vão entender o porquê, isso já faz bastante tempo, eu estava esperando minha terceira filha, estava tão barriguda que quando me olhava nua no espelho, sozinha é claro, me achava o próprio lutador de sumô, não compartilhava essa cena bizarra com ninguém, afinal não era nada sexy.
Então, ao final de minha gravidez, as pessoas da minha família tentavam me poupar de emoções mais fortes, pois o bebê já dava sinais da sua vontade de nascer.
Numa bela tarde de domingo, como era de costume, íamos sempre almoçar na casa dos meus pais e ficávamos horas jogando conversa fora. Mamãe comentou que o filho da sua melhor amiga, a Marineide, sofrera um acidente e estava muito machucado, todo inchado e bem deformado. Só para ilustrar, o carro sofrera perda total e ele estava irreconhecível. Disse-nos que Marineide iria buscar o filho Alvinei no hospital, pois ele já tinha recebido alta e passariam em nossa casa, queriam nos ver.
Mamãe deixou bem claro: “Clotilde,  prefiro que você não vá vê-lo para não se impressionar”. Depois de um tempo  tocou a campainha, era ela e seu filho. Foram todos para a sala confortá-los. Quanto a mim, fiquei só e muito, mas muito curiosa... não resisti! Foi aí que se deu o desastre. Cheguei bem perto dos dois, primeiro dei meu beijo consolador na mãe e depois, toda solidária, fui prestar meus sentimentos, do fundo do meu coração, ao rapaz. Mas minha língua foi mais rápida que meu raciocínio e disse: “Nossa Alvinei, você está a cara da sua mãe!”
Quando caí em mim, me virei de costas para ele e sua mãe e dei de cara com os demais da sala desconcertados. Comecei a rir e todos começaram a rir também, pois perceberam que era verdade, ele estava idêntico a sua mãe. Enquanto todos riam, foi aí que eu comecei a chorar por ter percebido minha gafe.
Nunca mais vi os dois... Fico pensando se existe um jeito de pedir desculpas. Sei também que muitas vezes o silencio é o melhor remédio.
Marineide e Alvinei, sinto muitas saudades.

sábado, 4 de junho de 2011

Lembrando do passado



 Eu estava de volta no tempo. Em cima da charrete do seu Olimpio cantando Aldila, era a princesa em sua carruagem guiada por cavalos brancos. Era a dona do mundo, criando sonhos e inventando histórias.
Em plena rua de paralelepípedos, um céu azul, uma estação de trens e eu, cantando como se fosse uma artista de filme. Cheia de alegria de menina, fazia viagens pelo mundo.
Quando voltava do passeio, já em casa, sentava no jardim e roubava uma rosa do canteiro. Havia vários pés de rosas: brancas, vermelhas, perfumadas e lindas. Gostava principalmente das vermelhas, retirava pétala por pétala, e colocava em minhas unhas, como se fossem unhas postiças.
Junto ao jardim, um escritório. Lá, ficava horas olhando os livros do meu pai, achava lindo o colorido de suas capas, imaginava que todos eram vestidos, meus vestidos. Eram modelos concretos que eu mesma desenhava, sonhando acordada de olhos abertos. Eram cheios de detalhes delicados como: laços, brilhos, rendas e cetim.
Todas as minhas bonecas tinham ‘roupas de bonecas’, isso mesmo, ‘de bonecas’ pois eram bem cuidadas, sentadinhas, comportadinhas, cheias de graça ...minhas filhinhas. Era comum abrir uma espiga de milho, afinal os cabelinhos do milho seriam lindas perucas para as minhas bonecas carecas, elas adoravam.
Gostava de ter meus pais por perto, me sentia segura, protegida. Meu mundo era diferente, achava que Deus tinha feito o universo só para mim... Naquela estrada do passado, de quando eu era criança, sabia que era realmente feliz!
Veio em minha memória uma historinha contada pela minha mãe. Uma rata mãe fala para seu ratinho; “cuidado com o mundo, ele é perigoso!” O ratinho quer saber o porquê?, então a mãe rata explica; “lá fora de casa tem um bicho horroroso, cruel, que mata sem dó nem piedade.” O ratinho ficou muito assustado, todo arrepiado. Sua mãe, achando melhor poupá-lo um pouco, lhe disse; “Filho, há também um outro bicho que é muito inofensivo, esse não vai te fazer nenhum mal. Também existem coisas boas nesse mundo...” O ratinho aliviado, foi brincar com os outros ratinhos.
Saiu de sua toca e deu de cara com uma galinha, ele a achou muito feia e saiu correndo. Quase do outro lado do muro e totalmente relaxado, o ratinho suspirou aliviado. Mais adiante, ficou encantado com o que viu: um gato lindo e peludo. Esse sim poderia ser seu amigo. Era bonito, não foi essa a recomendação da mãe?, então, coitadinho do ratinho, cometeu o maior e único erro de sua vida, virou o almoço daquele felino caçador.
Quando estamos dentro do nosso mundo, estamos guardados e longe do que não conhecemos, porém, existe além do jardim, um outro universo no qual descobri que sou apenas um figurante. Precisamos sonhar, é fato, e os sonhos não envelhecem, mas nós sim, crescemos e envelhecemos.