Sexta-feira
Santa, lembro do céu desse dia, era sempre cinza, era um dia mudo, sem música. Mamãe
dizia: “Hoje lembramos o dia da morte de Cristo!”. O sábado trazia resquícios
da sexta–feira da paixão, o céu não estava totalmente claro, mas a morte de
Cristo ainda era motivo de silencio. Manhã de Domingo, papai nos acordava de
maneira afetuosa, falava assim: “Olhem o que o coelhinho trouxe!”. Nós
pulávamos da cama, nossos olhos brilhavam... “O meu é vermelho”, mas tinha
azul, verde, amarelo.... uma porção de ovos coloridos! E pelo caminho cenouras
mordidas, não é que o coelho esteve por lá!
Papai gostava
de nos reunir nessa data. Íamos para o quintal de casa, era um quintal cheio de
árvores, Acácia Mimosa era a sua preferida. Acho que suas flores amarelas e seu
perfume davam um toque especial e lá fazíamos uma pequena Missa, ao som do
violino tocando Ave-Maria, ficávamos em silencio, escutando as palavras saídas
do coração do meu pai, era singelo esse momento, nos confraternizávamos.
Mamãe colocava
uma toalha branca com uma estampa bem delicada, minúsculas rosinhas rosas de miolinhos
amarelos, sobre a grama ainda molhada de orvalho... Mamãe caprichava, nos
servia um delicioso café da manhã. O perfume do café atraia até os passarinhos,
que atentos esperavam as migalhas dos pães e restinhos de bolo.
Olhos azuis da minha mãe se divertiam, olhos
azuis que riam... É o que eu tenho mais saudade, desse rizo maroto nos olhando
enquanto corríamos, corríamos entre as copas das arvores e os raios do sol! Assim
eram nossos domingos de Páscoa!