Quantas vezes olho para o nada e vejo quanto mistério existe. Imagino um poço sem água, vazio, e tantas pessoas morrendo de sede e tanto silencio. Mas mesmo assim escuto o universo agitado implorando por um abraço. Esbarramos em pessoas, mas são invisíveis, não olhamos e não sorrimos!
Ando por uma rua antiga e penso nos séculos da sua idade, penso nos meus ancestrais, escuto o barulho do salto do sapato de alguém que já passou por lá, um homem ou uma mulher. Mas muitos já estiveram indo e vindo com um jornal na mão ou um saco de pão... Ou talvez apenas acompanhado pela sua própria juventude.
As árvores centenárias são molduras, permanecem. A pintura envelhecida, quase em branco e preto, desbotada, lembra a historia de muitos... O homem morre, o dia amanhasse a noite acontece. A lua presa na escuridão transborda seu silencio, o mar traz suas ondas sem pressa na sua cantiga soberana e milenar.
Fecho meus olhos, gostaria de poder voar, gostaria de ser uma gaivota na imensidão do tempo. O tempo não fala comigo, viajo só, sem companhia... Quantos anos tem uma alma?
Sinto o amparo de mim mesma, a minha sombra, feito um cão fiel que não me pergunta nada, divide esse momento, tão só como eu, transcende tanto como eu, nos meus pensamentos secretos... Ela e eu somos uma só!
Acordei com os gritos desesperados de uma mulher, era madrugada no final da semana passada. Olhei pela janela, a rua deserta e escura, dois carros de policia e uma ambulância e a voz alta de uma mulher aflita que gritava: “Socorro, me soltem não me machuquem, quero meu filho, por favor me ajudem!” Fiquei indignada, apavorada, com o coração pequeno... Seria uma injustiça? O que estaria acontecendo?
Era desproporcional, aquela mulher só, policiais armados e enfermeiros! O mundo dorme na calada da noite e as suposições povoando nosso imaginário... O que aconteceu com aquela moça? No dia seguinte, fui conversar com o porteiro do prédio, fiquei sabendo o nome dela, Marcia. Ela estava sendo conduzida a uma casa de repouso, ultrajada, exposta e principalmente só.
Conheci sua melhor amiga e ela me contou a historia de Marcia, historia igual a de tantãs mulheres, Marcia não se submeteu aos padrões e convenções e foi por um outro caminho... Caminho torto segundo seus “familiares”. Ela queria ser livre... Mas por que deveria ser livre? Algemada e fora de combate partiu. Imagino que foi sedada, seus gritos inoportunos quem quer escutar?
Marcia deixou uma carta para sua amiga e eu a li:
“Eleonora, acho provável que você nem leia essa carta, mas contudo existe alguma esperança no meu coração.
Percebi que ainda existe um governo ditatorial em minha própria família e se você não obedece seu Rei você é posta no calabouço humilhada degredada.
Até então tinha uma noção diferente da vida, achava que pessoas do mesmo sangue lutavam por igualdade e que generosidade e respeito fossem sentimentos possíveis, “Existentes”, “Naturais”.
Achava que o problema de um membro era visto com compaixão. Quem não sonha com um colo de mãe? Eu acreditava!
E de repente você descobre que o justo não é mais justo, a porta se se fecha na sua cara e mesmo que você grite... Gritar para que? É mais fácil tirar sua voz e te jogarem no lugar de “leprosos”, numa ilha deserta a parte do mundo “NORMAL”.
O que é ser correto ? Ser correto é ser obediente? Não ousar? É na verdade só uns podem, alguns podem tudo! Os que sentam a mesa do Governante é que tem o aval para tudo... Tem tanto poder, o mesmo olhar, a mesma força bruta. Os outros são crianças, crianças que precisam ser caladas e controladas, manipuladas e esvaziadas.
O primeiro mandamento de seres assim é o preconceito, quem não é igual, que vire comida de tigres, na mesma Arena de um tempo passado e ignorante, onde ainda não se falava de Cristo.”
Depois que li a carta de Marcia chorei, chorei por todas as “Marcias” e também por mim. Vivemos num mundo de aparências, um mundo surdo, cego e mudo, vazio de Amor pelo outro.
Uma noite de lua cheia – céu maravilhoso – fomos passear. O Lu e eu descemos a rua de casa a pé. A uma quadra e meia paramos, chegamos no Emillia Restaurante. Uma casa de bairro, um convite para entrarmos, parecia a casa de uma tia... Entramos. Que acolhida, era mesmo como a casa de um parente, muito aconchegante.
Emillia se sentou conosco e contou sobre a ideia de como surgiu aquele maravilhoso centro gastronômico. Percebi todo o capricho, os detalhes. Lá você se sente muito bem-vindo, desde os meninos garçons, o cheff Caio Tuma – filho da Emillia – tudo nota 10!
A comida é pra lá de especial, tipo quando a gente vai fazer um jantar especial para aquela pessoa e você intensifica seus cuidados para nada sair errado... A mesa, a flor, o tom da luz, a música... Até o café descafeinado – para não tirar o sono.
É simples e sofisticado, não é um lugar comum. O “Emillia” está participando do “Retaurant Week”, um evento organizado pela “Master Card”... Chique de mais! Os bons restaurantes de São Paulo oferecem entrada, prato principal e sobremesa por um preço mais acessível. O almoço sai por R$ 31,90 e o jantar R$ 43,90, mais o preço das bebidas e o que for consumido a mais.
Nesta temporada do evento, como sempre, o cardápio do Emillia Restaurante, dá água na boca só de ler... Risoto de Salmão com Maracujá, Pescada com farofa de camarão, Risoto de calabresa com manjericão, Gnochi ao ragu de carne, entre outras opções de prato principal. As entradas também são tentadoras, escolhi a Brusqueta de tomate e manjericão.
Na hora da sobremesa tive de babar, fiz uma promessa que ficarei um ano sem comer doce. Tive de me contentar vendo meu filho comer uma bela panacota de mel, que segundo ele estava sensacional. É um pudim de leite bem leve com calda de frutas vermelhas... Que tortura!
O Alê é um dos garçons, muito especial seu carinho conosco. Se vamos voltar... Claro! Já voltamos e fomos recebidos de braços abertos... Muito bom ser tratado com esse cuidado.
Como disse, fomos a pé e voltamos do mesmo jeito, acho que foi providencial, comemos tanto, que foi preciso uma caminhada para fazer a digestão.
Emillia, uma mulher de RG como o meu e que está em pleno vigor de sua vida... Planos e sonhos... Emillia nota 1.000.
Quem disse que as mulheres não acalentam suas intimas fantasias? Maria se abriu comigo e confesso que seus olhos brilharam, tamanho eram seus desejos ao fazer a seguinte revelação....
"Uma mulher, para ser feliz, precisa ter sete homens. O primeiro, um homem marido, que seja um porto seguro, pai dos filhos e provedor da casa; Segundo, o homem amante, aquele que paparica, que te faz ser exclusiva, te encontra a cada 15 dias e, sempre disponível, te envolva com sonhos; terceiro, o homem amigo, aquele que te oferece o ombro, chora com você - nem liga para a sua TPM – e é solidário as suas inseguranças e crises existenciais; quarto, um homen gay, aquele que te olha e jura que você esta supervitaminada, gostosa e repara no seu corte de cabelo, maquiagem, no seu novo vestido e principalmente te dá o endereço de um shopping de luxo com novidades da Dolce Gabbana; quinto, um homem dançarino, adora dançar, que apenas te coloca nos braços e te leva nos seus passos e compassos, silencioso e cheio de ritmo não reclama nem dos seus pisoes de pé, dança tango, bolero e cai com você numa gafieira; sexto homem, o companheiro, aquele que fica no sofá massageando seus pés, beijando seu rosto, desenrolando seus cabelos, que faz você até dormir, não canta, mas usa seus poderes de encantador; o sétimo homem, um garanhão - para tirar o seu fôlego - avassalador, de fazer a terra virar céu, e te invade de tanto amor...”
Quando pensei que Maria já tinha terminado com seus livres desejos, continuou... “Acho que deveria existir um oitavo!” Perguntei: "Mas o que está faltando?" E ela, com seus olhinhos claros e límpidos e um sorriso bem típico de nós mulheres, me diz: “Um homem adivinho, que descubra sempre os nossos desejos”.
Maria divertida, arteira, criativa, sábia, corajosa, intensa e acima de tudo verdadeira... Uma mulher de sete véus.