sábado, 30 de julho de 2011

A estrela cadente


Era uma noite escura de outono, sim, haviam estrelas pipocadas no céu, uma lua gorda e generosa olhando pra mim. 
Estava distraída dirigindo meu carro, ouvindo a música de sempre (My way), pois a acho linda.
O farol fechou e eu, tão envolta em meus pensamentos, nem percebi um cadeirante se aproximar do carro e falar: “Me dá um sorriso?” Eu na hora respondi: “Não tenho!”. Então ele disse: “Mas eu só te pedi um sorriso..." e eu sorri pra ele. Foi um sorriso puro e espontâneo, como se de repente tivesse visto uma estrela caindo do céu. Como alguém te pede um sorriso? Quer coisa mais gratuita que isso? Sem saber, ele me proporcionou uma enorme vontade de rir, não apenas um sorriso, fiquei feliz,  me senti feliz...
Temos cinco sentidos, visão, audição, olfato, paladar e o tato. Não somos parados, estáticos, temos movimentos e vivemos. Executamos todos os nossos sentidos e sorrir me fez ver o quanto estou viva.
Mudei de música, aumentei o som do CD e cantei: “É bonita, é bonita e é bonita...viver e não ter a vergonha de ser feliz...” Simbora gente!


sábado, 23 de julho de 2011

Um mistério intrigante!


Há muito tempo minha irmã Bebel e eu dormíamos no mesmo quarto, era muito bom. Às vezes encostávamos nossas camas e ficávamos horas conversando, sempre havia um radinho embaixo do nosso travesseiro, adorávamos ouvir a Difusora ou Excelsior, naquele tempo as rádios AM mais badaladas, músicas como Feeling, Bem e tantas outras que até hoje fazem a gente sonhar. Adoro voltar ao passado... Dá para perceber, não é mesmo? Tenho algo nostálgico no meu DNA, não é coisa de idade pois sempre fui assim, não se trata de crise ou Alzheimer, acho que fui é muito feliz! A Bebel tinha um coelho de feltro verde com armação de arame, ele era um pouco grande e segurava uma cenoura laranja, era seu enfeite de prateleira. Era comum acontecerem coisas estranhas no nosso quarto (numa próxima vez eu as conto), ta bom, uma só, já plantei até bananeira dormindo... Coisas incríveis num quarto das meninas... Lembra Bel? Dos travesseiros...isso é impublicável! A gente morria de rir.... Bom, voltando ao coelho verde; coitado, jamais encontrado... Bebel acordou no meio da noite engasgada, desesperada, fazendo movimentos estranhos que eu não conseguiria descrever, só sei dizer o que vi e ouvi; ela dizia: “comi o coelhinho, comi o coelhinho, comi o coelhinho!”. Colocava a mão na garganta desesperada e chorava. Meus pais se levantaram e ninguém entendia tanto barulho, luzes se ascenderam e todos acordaram, até os cachorros latiram, foi quase um drama. Bebel suada, transtornada, acho que seu pescoço estava até maior, ela ficou muito assustada e jurava que tinha comido o coelho verde. Mas o incrível dessa história vem agora, a verdade é que nunca mais encontramos o tal coelho, nem verde nem azul, nunca mais se viu o tal enfeite. Quando olho para o passado, fico abismada e pergunto: “Bebel, onde estão os arames? A cenoura? O feltro verde? O Que aconteceu?” É... não temos respostas.

Ela jura que seu coelhinho foi tragado num momento de bocejos e depois, de um susto enorme, não conseguiu colocá-lo para fora. Segundo ela, ele está alojado em uma de suas vértebras e quando o tempo muda, ela sente muita dor.

A verdade é um mistério, não tenho provas concretas, mas percebo que às vezes Bebel me lembra vagamente uma coelhinha. Beijos Clô.


sábado, 16 de julho de 2011

Como é seu Deus?

 
Ele tem olhos orientais ou olhos ocidentais??? É gordo ou magro???
Suas roupas são de surfista ou usa terno e gravata??? Fala inglês ou alemão? Tem mãos grandes, mais de 2 metros de altura, é um atleta que faz caminhada no céu e conversa com todo mundo? Ele dá risada, chora, ouve música... Qual é seu filme predileto, será que gosta de assistir novela?
Como é seu Deus? Ele te escuta sempre e troca idéias com você? Ele é jovem ou velho? Seu Deus tem sonhos... Se comove, se agita, fica perplexo com o mundo? Ele gosta de um vinho ou prefere Coca Zero... Como é seu Deus?  Você é íntimo dele? Ele conhece seus desejos, te visita? Ele gosta de pizza?
Te carrega, te levanta, com qual igreja Ele se identifica e em quais esquinas Ele para, toca e abraça as pessoas?  Seu Deus tira férias... Faz viagens para o Nordeste, vai para a África, Pólo Norte ou faz maratonas...Investe na bolsa? Ah, já sei, assiste Datena! Escuta as previsões do tempo...
Como é seu Deus? Você o chama de amigo ou Ele te chama de filho?  Ele fica bravo, tem depressão, se encontra num happy hour para relaxar com seus escolhidos? Ele é só ou namora? Como é seu Deus? E a Sua casa, tem grades nas janelas, portas grandes, jardim, cachorro de estimação ou gato, talvez canários!
Já sei, vai convidar um exército de homens influentes para seu próximo almoço e talvez mulheres tristes para um chá  das 5 horas. Espere, acabo de escutar um trovão, acho que ouço Sua voz, escuto um sussurro que vem com o vento... Nossa, que calor! É ele que chega me dizendo: “Filha, - Numa voz de violino - você não Me vê , mas você pode Me  escutar. Sou o regente e criador desse infinito de luz, do dia, da noite,  do mar. Você gosta?”. “Sim”, por isso pensei numa canção para mostrar o quanto gosto daquilo que me mostra. Como ele consegue criar tudo isso? Deve ser por muito amor! Devo olhar e me encantar, afinal faço parte de tudo isso.
Talvez seu Deus deva ser do jeito que você imagina... o meu Deus pode voar, se multiplicar, se dividir, estar agora aqui e também em vários outros lugares. Ele não é exclusividade  minha, mas segura minhas mãos, me abraça, me escuta....

sábado, 9 de julho de 2011

Atropelada por um bico fino


Como de costume, levantei descalça e cantando. Acho que esse é o horário mais alegre do dia, pois estou sempre feliz e de bem com a vida.
Entro no quarto de minha filha Cacau pra dar bom dia. Ela estava linda e cheirosa, pronta para ir para o trabalho. Fui ao seu encontro pra o abraço matinal.  Ela com seus sapatos bico finos e eu com os meus pés desprotegidos e recém saídos da cama. Ao nos abraçamos a ponta do sapato me acertou, senti que fui “atropelada”, quase morri de dor, ela por sua vez, achou um exagero e disse: “Nossa mãe, também não foi assim!” e nem deu bola.
Mais tarde uma amiga me ligou para contar que seu marido acabara de falecer. Arrumei-me, meu pé esquerdo latejava, coloquei meias e botas para protegê-lo. Chegando ao velório, fui cumprimentar a família. Quando abracei o genro da minha amiga, adivinhem o que aconteceu... Ele pisou justamente no meu pé machucado. As lágrimas brotaram de meus olhos na hora, desatei num pranto de dor que ele acabou  achando que era pelo defunto. Começou então a dizer-me palavras confortadoras tais como: “Foi melhor para ele que descansou, não fique assim...”.
Saí direto de lá para o Hospital Nove de Julho com um grande hematoma e um pé estraçalhado. Hoje em dia sou mais cuidadosa, levanto ainda descalça, mas quando vou dar meus abraços, fico com os pés bem para trás e mais atenta aos movimentos dos abraçados. Não quero nunca mais sentir a dor de ser massacrada por sapatos de bico fino ou quaisquer outros. 

P.s.: Não consegui encontrar nenhuma música que falasse desse tipo de dor, por isso resolvi  enfeitar um pouco esse texto, imaginando que muitas vezes, quando nos encontramos  com pessoas,  acabamos dançando um balé, vem você daqui o outro dali.  Muitas vezes seu abraço quase chega num beijo na boca! Outras vezes você fica rodando de um lado para outro, fugindo, dando espaço para o outro... por isso pensei em ilustrar de maneira  delicada esses acontecimentos.                                                    
          Cacau, esse vídeo tem a nossa cara, por que retrata de fato uma sintonia de muito amor, mesmo tendo alguns pisões de pé , nós dançamos juntas, somos parecidas  e sabemos nos acolher em nosso amor de mãe e filha!  Te amo... 



sábado, 2 de julho de 2011

Carta para Paulo




São Paulo, 02 de julho de 2011
Oi Paulo, como vai?
E ele me diz: “não enxergo, minhas pernas estão duras, estou velho, que idade você me dá?” E eu digo brincando: “100 anos!” Ele se assusta. “É Paulo, 100 anos...”
Toda manhã ele me convida: “Clotilde,  vamos tomar um vinho à noite?” Eu digo: “Claro!” Para mim é um momento tão gostoso, como na Festa de Babetty,  filme antigo que mostra o que um bom vinho faz!  Assistam, é lindo!.
Outro dia ele falou para Bebel, minha irmã: “Sua mãe voltou para casa...”. Encho a casa dele de flores, coloco músicas e ele me fala de seu mundo. Fico atenta, pois afinal, é  um encontro!
Ficamos assim recordando tantos momentos... Gosto muito do Paulo, sempre gostei, ele me ensinou tantas coisas: rezar, nadar e ter coragem. Esse homem nunca foi um super-herói, muito pelo contrário, sempre foi tão real... mostrou suas fraquezas, seus desejos, foi verdadeiro e sábio, igual á nós, nunca se colocou acima, nem sequer um andar.
Esse homem de 100 anos que carrega sua velhice no andar e nas suas manias é que me faz contar até 10, ás vezes não é nada fácil! Sinto que devo me dobrar aos seus pés e a toda sua cultura que adquiriu com o tempo. Sua lucidez impressiona, sua bagagem me dá orgulho e sua voz que me chama, e me chama, e me chama...
Acho que Paulo não é perfeito e nem faz questão de ser. Ele ri, ele chora, ele ensina, ele falha, às vezes, em sua lucidez de seus 85 anos. Mesmo assim, ele é ainda um herói de carne e osso, não faz tipo de super em nada, é apenas nosso Pai.
Pai de 6 filhos, 8 netos, 3 bisnetos e muitos agregados, humildemente passa a bola  para alguém fazer o gol. É mestre sem querer sê-lo, amado por todos, esse é meu amigo Paulo Virgilio. Mesmo com sua idade, ainda consegue ser meu melhor amigo. Meu amor, meu amor...