segunda-feira, 5 de maio de 2014

O BALÉ DAS FOLHAS

Estou aqui, o silêncio não é bem um silêncio, acabo de escutar o som de um avião escondido nas nuvens...
O dia está nublado, faz frio e esse convite natural de não sair da cama, ela esta quentinha...
Da Janela do meu quarto fico espiando... É uma bela apresentação, o balé das folhas.
Fico em silêncio, como numa plateia calada que admira a delicadeza da apresentação, verdadeira sintonia, a melodia do vento orquestrada por um maestro, o Tempo.
As folhas verdes e seus degrades, desenhos e tamanhos diferentes, bailarinas que se exibem numa coreografia original.
Fixo meus olhos, elas me encantam, nos olhamos e elas me saldam , me convidam a dançar, chego mais perto da janela....
Elas se movimentam gentilmente, descem quase até o chão, como uma reverencia, sobem alegres, se agitam, estão vivas de vida.
E eu, as aplaudo em pé, é o show da vida!!!!!!!!


Por: Clotilde Magano

sábado, 12 de abril de 2014

A criança que habita em mim


Mamãe dizia: “Você é muito sentimentalista (uma  boba)”. Lembro do nó na minha garganta, tudo doía muito, uma sensibilidade que precisei  engolir num choro e desengasgar logo em seguida, para poder crescer...

Os adultos se esquecem que já foram crianças ou apenas fingem que nada existiu... Guardado num porão, junto de discos e revistas,  a infância fica  lá esquecida, como se fosse uma muda de roupa que não te serve mais. Uma mala jogada num canto qualquer, cheirando passado, sem cor, sem voz, longínqua e solitária. A Infância amadurece e muda de nome...
As crianças sofrem, tudo é muito misterioso. Ela curiosa precisa entender o mundo, a angustia é apertada e o medo é real.

Quando tinha uns sete anos, morava  numa cidade pertinho de São Paulo, em Guarulhos, lembro quando fui passar uns dias na casa da minha avó, no interior de são Paulo, em Tietê. Me recordo que a noite era um terror, pois tinha medo de dormir no escuro e a minha avó deixava tudo apagado. Só escutava os passos das pessoas andando na calçada, pensava que fossem os sapatos de salto alto da minha mãe, enfim, ela estava chegando para me buscar, não deixava minha avó dormir, bastava ela fechar os olhos para eu abri-los com as mãos, minha avó não aguentou, mamãe foi me buscar.

Lembro que quando estava no terceiro ano primário, uma coleguinha minha faltou por vários dias, sua mãe tinha morrido... Chorei de imaginar quem ela ia chamar de mãe quando precisasse de  um abraço, nunca mais ela teria o abraço quentinho da mãe, nunca mais... Engana-se quem pensa que criança não sofre crises existenciais. Que criança não tem insônia, dor de cabeça... No meu quarto de menina, imaginava que uma parede era a porta de um outro mundo, lá eu vivia um sonho encantado de castelos  e de bichinhos vestidinhos, onde todos eram amigos e se visitavam, meu refúgio e assim conseguia dormir...

Procurava a cama dos meus pais, o abrigo perfeito, meus pés ficavam quentinhos e meu coração se acalmava. Lembro bem de um fim de tarde, o sol se apagava no céu quase sem nuvens, me senti tão só, tão pequena, mamãe cuidava da minha irmã menor e eu tão desprotegida  naquele momento. Acho que estava  ventando e pela primeira vez senti a solidão. Voltar nesse tempo, que tudo parecia ser de ciranda, me faz lembrar que o anel que tu me deras era vidro e se quebrou e a rua de pedrinhas de brilhante não existe mais!

sexta-feira, 21 de março de 2014

O tom do passado


Conheci o Arnaldo depois que postei uma foto antiga, da família da minha mãe, no face. Foto dos meus avós jovens e seus filhos pequenos, mamãe ainda bebe. Ele conta que foi vizinho, por muitos anos, da casa dos meus avós, além de ser do mesmo ano de nascimento da minha mãe, diz também da amizade com a família... Lendo sua mensagem, in box, senti algo tocante, como se de repente o telefone tocasse e do outro lado da linha fosse minha mãe - falecida em 2009.

Arnaldo devolveu para mim um raio de sol na estrada perdida do tempo, coberta de folhas amareladas, me deu a sensação de estar num tapete macio e de uma caminhada feliz!

Tietê, 1933, ano de nascimento da minha mãe... Hoje, em 2014 volto distante para as memorias de lá. Escuto sua voz, enxergo sua letra escrita em seu caderno de poesia... Vejo mais: sua juventude perpetuada na foto em branco e preto - doce saudade - lá estão pessoas amadas: Afonso, Clotilde, Irma, Ilse, Irio, Isa... Um momento que existiu mesmo e foi colorido, Arnaldo foi prova disso! Obrigada amigo, me senti voltando pra casa....

P.s. Na fotografia citada não está meu tio Ivo, ele ainda não tinha nascido.



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Ao som de Prelúdio


Sentada em sua cadeira preferida, Dona Francisca, de olhos fechados, sonha com os tempos coloridos da sua vida. Muitas vezes prefere ficar assim, de olhos fechados, como se pudesse ressuscitar as vozes, os passos e quem sabe os dias felizes que ficaram pra trás.  
          Dona Francisca gosta de dizer que tem 88 anos, ela mesma se surpreende com a sua idade, não  gostaria de estar velha e tão pouco de precisar do auxílio de cuidadores. Ela, que era tão independente, hoje se vê quase cega e com sérios problemas na coluna, perdeu  o timão do seu barco e tudo ficou a deriva.
          De olhos fechados consegue voar, talvez sonhe com seus filhos quando ainda eram crianças e juntos se reuniam à mesa de jantar para saborear sua comida, comida de mãe feita com tanto carinho. Hoje seus filhos já estão adultos, cada um num lugar diferente, não é mais tão fácil reunir toda família, os netos ela adora, também já tem quatro bisnetos... Quem diria que veria tudo isso?
          Seu marido partiu há alguns anos atrás e ela está viva, mais ou menos viva, como costuma dizer, sente tanta saudade, saudade que dói e não tem remédio que cure.
          Dona Francisca segura a minha mão... “Mão de menina”, fala com sua voz um pouco fraca. Sinto o esforço que faz para não perder a conexão com a realidade... Ela me pede com carinho para que eu a visite, se sente muito só e eu sinto a sua solidão. Novamente segura a minha mão e pergunta se sou feliz, digo que sim e ela sorri.
           Me fala também da música que estamos ouvindo: “É do Vinicius de Morais, Prelúdio de Amor, linda musica”. Ainda pergunta: “Ele já morreu?”. Digo que sim e ela fecha novamente seus olhos e reflete: “Para onde ele foi?”.
          Fecho meus olhos pois não sei a resposta, tenho que ir Dona Francisca... Ela me pede, com seus olhos quase sem luz: “Fica!”. Seguro suas mãos tremulas e prometo que volto amanha...