Mamãe dizia: “Você é
muito sentimentalista (uma boba)”. Lembro do nó na minha garganta, tudo
doía muito, uma sensibilidade que precisei engolir num choro e
desengasgar logo em seguida, para poder crescer...
Os adultos se esquecem
que já foram crianças ou apenas fingem que nada existiu... Guardado num porão,
junto de discos e revistas, a infância fica lá esquecida, como se fosse uma muda de roupa
que não te serve mais. Uma mala jogada num canto qualquer, cheirando passado,
sem cor, sem voz, longínqua e solitária. A Infância amadurece e muda de nome...
As crianças sofrem, tudo é muito
misterioso. Ela curiosa precisa entender o mundo, a angustia é apertada e o
medo é real.
Quando tinha uns sete
anos, morava numa cidade pertinho de São Paulo, em Guarulhos, lembro
quando fui passar uns dias na casa da minha avó, no interior de são Paulo, em
Tietê. Me recordo que a noite era um terror, pois tinha medo de dormir no
escuro e a minha avó deixava tudo apagado. Só escutava os passos das pessoas
andando na calçada, pensava que fossem os sapatos de salto alto da minha mãe,
enfim, ela estava chegando para me buscar, não deixava minha avó dormir,
bastava ela fechar os olhos para eu abri-los com as mãos, minha avó não
aguentou, mamãe foi me buscar.
Lembro que quando
estava no terceiro ano primário, uma coleguinha minha faltou por vários dias,
sua mãe tinha morrido... Chorei de imaginar quem ela ia chamar de mãe quando
precisasse de um abraço, nunca mais ela teria o abraço quentinho da mãe,
nunca mais... Engana-se quem pensa que criança não sofre crises existenciais. Que
criança não tem insônia, dor de cabeça... No meu quarto de menina, imaginava
que uma parede era a porta de um outro mundo, lá eu vivia um sonho encantado de
castelos e de bichinhos vestidinhos, onde todos eram amigos e se
visitavam, meu refúgio e assim conseguia dormir...
Procurava a cama dos
meus pais, o abrigo perfeito, meus pés ficavam quentinhos e meu coração se
acalmava. Lembro bem de um fim de tarde, o sol se apagava no céu quase sem
nuvens, me senti tão só, tão pequena, mamãe cuidava da minha irmã menor e eu
tão desprotegida naquele momento. Acho que estava ventando e pela
primeira vez senti a solidão. Voltar nesse tempo, que tudo parecia ser
de ciranda, me faz lembrar que o anel que tu me deras era vidro e se quebrou e
a rua de pedrinhas de brilhante não existe mais!