sábado, 17 de março de 2012

Na calada da noite

Acordei com os gritos desesperados de uma mulher, era madrugada no final da semana passada. Olhei pela janela, a rua deserta e escura, dois carros de policia e uma ambulância e a voz alta de uma mulher aflita que gritava: “Socorro, me soltem não me machuquem, quero meu filho, por favor me ajudem!” Fiquei indignada, apavorada, com o coração pequeno... Seria uma injustiça? O que estaria acontecendo?

Era desproporcional, aquela mulher só, policiais armados e enfermeiros! O mundo dorme na calada da noite e as suposições povoando nosso imaginário... O que aconteceu com aquela moça? No dia seguinte, fui conversar com o porteiro do prédio, fiquei sabendo o nome dela, Marcia. Ela estava sendo conduzida a uma casa de repouso, ultrajada, exposta e principalmente só.

Conheci sua melhor amiga e ela me contou a historia de Marcia, historia igual a de tantãs mulheres, Marcia não se submeteu aos padrões e convenções e foi por um outro caminho... Caminho torto segundo seus “familiares”. Ela queria ser livre... Mas por que deveria ser livre? Algemada e fora de combate partiu. Imagino que foi sedada, seus gritos inoportunos quem quer escutar?

Marcia deixou uma carta para sua amiga e eu a li:

“Eleonora, acho provável que você nem leia essa carta, mas contudo existe alguma esperança no meu coração.

Percebi que ainda existe um governo ditatorial em minha própria família e se você não obedece seu Rei você é posta no calabouço humilhada degredada.

Até então tinha uma noção diferente da vida, achava que pessoas do mesmo sangue lutavam por igualdade e que generosidade e respeito fossem sentimentos possíveis, “Existentes”, “Naturais”.

Achava que o problema de um membro era visto com compaixão. Quem não sonha com um colo de mãe? Eu acreditava!

E de repente você descobre que o justo não é mais justo, a porta se se fecha na sua cara e mesmo que você grite... Gritar para que? É mais fácil tirar sua voz e te jogarem no lugar de “leprosos”, numa ilha deserta a parte do mundo “NORMAL”.

O que é ser correto ? Ser correto é ser obediente? Não ousar? É na verdade só uns podem, alguns podem tudo! Os que sentam a mesa do Governante é que tem o aval para tudo... Tem tanto poder, o mesmo olhar, a mesma força bruta. Os outros são crianças, crianças que precisam ser caladas e controladas, manipuladas e esvaziadas.

O primeiro mandamento de seres assim é o preconceito, quem não é igual, que vire comida de tigres, na mesma Arena de um tempo passado e ignorante, onde ainda não se falava de Cristo.”

Depois que li a carta de Marcia chorei, chorei por todas as “Marcias” e também por mim. Vivemos num mundo de aparências, um mundo surdo, cego e mudo, vazio de Amor pelo outro.



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