quinta-feira, 4 de abril de 2013

Visita ao senhor



A sala está na penumbra, sento ao seu lado, sua mão ainda forte se entrelaça com a minha, há apenas a sintonia das nossas almas. Pela tela da televisão apagada, o reflexo em branco e preto faz com que eu o observe. O relógio de Parede toca suas seis badaladas, hora dos Anjos.... Percebo que ele reza baixinho sua oração predileta: Ave-Maria.

Me lembro dele moço, declamando para nós sua primeira poesia, insisto para ele declamar novamente, por um momento ele se empolga: “Pelo escuro da rua estreita ninguém me vê... Não me lembro mais!” E eu digo: “E o lampião e o vaga-lume que enroscou no seu sapato?”. Repete: “Não eu mão me lembro, faz tanto tempo!”

Um dia me disse da fragilidade da vida: “A vida é um fio delicado...”. São os acordes tocados em seu Violoncelo que ecoam agora em sua memória... Sua canção predileta - “Reverie”, de Shumann - que, nas cordas desse instrumento, o deixa nostálgico... “As vezes sinto o afago das mãos da minha mãe no meu rosto e a voz do meu pai”, me confessa timidamente. Diz ainda da saudade da sua esposa e dos filhos, sua maior conquista, frutos colhidos que se multiplicaram.

Há uma dor em seu olhar, posso escutar sua voz embargada, seu choro triste... Vem a noite, nasce o dia, ele é um homem cansado da vida, uma árvore centenária com raízes fincadas no solo, não há mais água para sevá-lo.... Sem frutos para colher.


Me diz, agora, o que ele espera da vida: “Espero todos os dias o relógio tocar as seis badaladas, hora dos Anjos... Espero que eles venham em revoadas, com suas flautas e harpas. Quero voar e ser novamente feliz!”.

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