A sala está na
penumbra, sento ao seu lado, sua mão ainda forte se entrelaça com a minha, há
apenas a sintonia das nossas almas. Pela tela da televisão apagada, o reflexo
em branco e preto faz com que eu o observe. O relógio de Parede toca suas seis
badaladas, hora dos Anjos.... Percebo que ele reza baixinho sua oração
predileta: Ave-Maria.
Me lembro dele
moço, declamando para nós sua primeira poesia, insisto para ele declamar
novamente, por um momento ele se empolga: “Pelo escuro da rua estreita ninguém
me vê... Não me lembro mais!” E eu digo: “E o lampião e
o vaga-lume que enroscou no seu sapato?”. Repete: “Não eu mão me
lembro, faz tanto tempo!”
Um dia me disse da fragilidade da vida: “A vida é um fio delicado...”. São os acordes tocados em seu Violoncelo que ecoam agora em sua memória... Sua canção predileta - “Reverie”, de Shumann - que, nas cordas desse instrumento, o deixa nostálgico... “As vezes sinto o afago das mãos da minha mãe no meu rosto e a voz do meu pai”, me confessa timidamente. Diz ainda da saudade da sua esposa e dos filhos, sua maior conquista, frutos colhidos que se multiplicaram.
Há uma dor em seu
olhar, posso escutar sua voz embargada, seu choro triste... Vem a noite, nasce
o dia, ele é um homem cansado da vida, uma árvore centenária com raízes
fincadas no solo, não há mais água para sevá-lo.... Sem frutos para colher.
Me diz, agora, o
que ele espera da vida: “Espero todos os dias o relógio tocar as seis
badaladas, hora dos Anjos... Espero que eles venham em revoadas, com suas
flautas e harpas. Quero voar e ser novamente feliz!”.
Para vc e para ele.
ResponderExcluirhttp://youtu.be/iMO0cNGeqVs