sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Encontro marcado

Ana coloca uma música, tudo pronto para aquele momento especial, a mesa posta com capricho, a louça rosa de porcelana inglesa e a toalha de renda branca. Sobre a mesa um pequeno arranjo de mini rosas coloridas enfeita e perfuma a sala de jantar, copos de cristal e um porta-gelo de prata no aparador completam a decoração. Há muito tempo ela espera por esse momento, quase 20 anos, seu coração esta em festa...

Quando conheceu Eduardo teve a certeza de que já se conheciam, pensava até que era de outras eras, de outras vidas, mas apenas se encontraram nos olhares e sorrisos e nada mais... ficou o sonho! Cantarola uma canção: “Hoje eu quero a rosa mais linda que houver e a primeira estrela que vier, para enfeitar a noite do meu bem...”

O interfone avisa, ele chegou... Ana sente suas mãos molhadas, um frio congela sua alma, Eduardo a abraça e com lindas flores silvestres a presenteia... Quanto tempo! Conversam sobre tantas coisas, contam suas historias do passado, riem das banalidades da vida, do que construíram e a noite prossegue com suas estrelas e luar. Seus olhos ainda se encontram, os sorrisos são os mesmo de antigamente. Eduardo convida Ana para dançar, uma música do passado, poderia até ser a música deles... Não sei! Suas mãos se procuram, se enlaçam, era muita saudade...


domingo, 4 de agosto de 2013

Para sempre...


Hoje acordei com saudades de você, senti sua presença e tive muita vontade de te escutar, saber como vai, segurar na sua mão, fazer um carinho... Faz tempo não é?

Foi numa manhã que seus olhos se fecharam e a despedida foi algo que até hoje não sei explicar, pois ainda tenho dificuldade de exteriorizar. É como se quisesse pular esse capítulo, mas mesmo assim sei que foi no dia 9 de maio de 2009 que senti essa dor doída, a dor de ficar órfã.

Sempre que sonho com você, você está feliz e seus olhinhos azuis ainda estão curiosos, acordo e fico contente: te vi, te vi, te vi... Mas hoje foi diferente, sonhei que o papai, você e nós filhos estávamos num gostoso bate-papo, falando coisas comuns, noticias de agora, você ria, sua rizada ecoava dentro de mim, tive total sensação que eu ria também, era tão real que acordei rindo, saudade, saudade, saudade...

Mãe, de repente você ficou tão longe, de fato não te escuto mais, você não me telefona, nem vai me visitar, como fazia antigamente. Adorávamos tomar café, ouvir seus CDs, você era tão apaixonada pela suas músicas... E intensa nos seus sentimentos, que até hoje quando seus netos e nós filhos escutamos certas musicas, nem precisamos falar, basta um olhar, já sabemos de quem estamos lembrando.

Numa manhã, tão bonita manhã, véspera do Dia das Mães, te levamos para um jardim, ele estava coberto de flores, flores para te receber, nossas lagrimas te molharam... Um silêncio, uma ausência, você não estava mais lá. Hoje quando nos encontramos no sonho, mesmo que bem rápido, pude te sentir... Seu calor, seu aconchego... Por um instante você estava aqui!


terça-feira, 25 de junho de 2013

Um minutinho comigo


Há quanto tempo não me encontro, não me sento comigo e não rio de mim mesma. Presto atenção na moça do ponto de ônibus, calada e triste. Penso: Quais os sonhos que a encantam? Reparo em casais sentados à mesa de restaurantes, silenciosos e distantes, penso no significado daquele encontro. Viajo no metrô olhando as pessoas, vou construindo histórias, imaginando o porquê da pressa de cada um, a correria da vida, o colorido das roupa e o quanto o meu semelhante é diferente de mim... Digo isso pois bem pequena me ensinaram que nós éramos imagem e semelhança de Deus....  Intrigante, muito intrigante... Vejo um mar de pessoas que se esbarram e nem ao menos se reconhecem. Também não me conheço!

Interessante imaginar o quanto me tornei distante de mim, talvez seja bem mais difícil olhar para si mesma, olhar para dentro, dar uma espiadinha, ter um contato imediato, varar os porões abarrotados  e cantos vazios. Quem sou eu?! Do que mesmo gosto? O quanto sou espontânea e verdadeira, me respeito? Faço jogos para viver, qual é o papel que represento, sou imagem do Criador? Onde está o melhor de mim? O que é o melhor de mim? Não sei.

Na frente desse espelho que me reflete a um ser, uma mulher, me observo. As marcas evidentes do tempo, meu sorriso, meu olhar, posso fazer várias caras e bocas... Prendo o cabelo, passo batom, pinto meus olhos, falo comigo, canto... Como é bom cantar! Dentro de mim, às vezes não há vontade cantar e nem sorrir, há um silencio secreto, há sonhos e fantasias adormecidas, falta tempo e espaço. Olho para mim de forma penetrante, como se pudesse mergulhar nesse universo... É uma caverna, cheia de cristais sedimentados, é o  meu lado avesso, sem maquiagem  sem retoques.

Psiu, psiu... Quero falar com você, escutar sua voz, dividir nossas metades... Que idade tem? Qual é a sua maior saudade? Onde está seu medo? Faz tempo, muito tempo que não  nos vemos, acho que vai me estranhar... Não tenho mais 20 anos!


terça-feira, 18 de junho de 2013

Passeando pelo passado




Estava arrumando uma gaveta, aquela que guardo fotos antigas, cartas com registros de coisas já sentidas... Gosto dessas lembranças, me surpreendo com essas recordações como se estivesse vendo pela primeira vez... Sempre me emociona! É onde guardo o passado, mas, toda vez que o visito, um sentimento presente me carrega para o futuro, pois tudo isso faz parte da minha bagagem, levarei comigo para eternidade...

“Minha querida Clotilde, Saudosamente estou lhe ofertando a inclusa foto instantânea da nossa juventude. Foi ela produzida em uma tarde de domingo de 1975 em frente ao Cine Gazeta, lembra? Fomos assistir a Opera Rock, Tommy.  Éramos  jovens e confiantes, o mundo era nosso... Você usava calça Lee, uma bata indiana cor de pêssego e uns tamancos bem altos, de cor marrom, era a ultima moda, plataforma escandalosamente alta, mas a gente se sentia gigante, só faltávamos voar, tudo era azul, me lembro do céu dessa tarde, inesquecível céu dessa tarde... Uns hippies mostravam seus trabalhos na mesma calçada e tiramos algumas fotos juntos, poesia pura, paz e amor! Nada menos que três décadas ultrapassaram essa data, toda via fatores circunstanciais ao longo do tempo tolheram nosso convívio quase diário...”


E assim gravado na minha memória, pinceladas desenham toda essa caminhada de tantos anos, atrás, faço esse mesmo trajeto, meu peito se aperta, saudade! Guardo novamente essa carta, ela não é apenas uma carta, ela é o termo de garantia dessa a  amizade que carrego cimentada no meu coração feito joia rara.



sábado, 25 de maio de 2013

Um dia assim


Sexta–feira, dia 24 de maio

Chego no Salão, hoje é o dia da beleza. Três da tarde, faço minhas unhas com a Teca e o que mais precisar... Lá encontro com minha amiga Deolinda e papeamos bastante, no meio de tudo isso chamo o Carlos, ele é o cabeleireiro e dono do salão, e mais ou menos sigilosamente e meio constrangida confesso: “Carlos, todas as vezes que me sinto com problemas existenciais, pego uma tesoura e faço um estrago no meu cabelo,  queria que você desse um jeito...”. Ele olhou para mim e bem piedosamente falou: “Sabe o que faço nos meus dias de problemas existenciais? Eu pego a tesoura  e minhas clientes saem felizes daqui”. Tipo Eduard mãos de tesoura... Achei ótimo!

Olha que me senti linda, acho que o espelho do Carlos já é preparado para elevar a autoestima de suas clientes. Bem na frente do espelho havia um tubo bem grande de laque e não pude acompanhar todo o processo de repaginação, mas quando pedi licença para retirar aquele tubo me senti de alma nova.

Saí correndo do salão, já era quase noite e ainda precisava passar no mercado pois Terezinha Romano ia jantar na minha casa... Tínhamos combinado que ela levaria o antepasto e a sobremesa e eu cuidaria do resto. Como estava frio, iria fazer uma bela sopa de abobora, com peras e queijo gorgonzola, deliciosa e bem apropriada! Fiquei encarregada de comprar algumas garrafas de vinho tinto, andei xeretando algumas sugestões no face do meu amigo Lenine Marcato, ele tem uma forneria em Guarulhos, cidade bem perto de são Paulo e pelas suas postagens, pratos que engordam só de olhar e vinhos que dão agua na boca... Sempre ótimas dicas!


Ontem a temperatura estava bem fria, da varanda do meu apartamento o céu era da cor de um jeans bem escuro e as nuvens borravam a escuridão. Conversa vai, musicas antigas, não sei porque sempre opto por escutá-las, não sei, mas fiz varias viagens no tempo, hora Tietê, lembrei das minhas lindas primas Ilze Maria, Ilka e Ieda - nos nossos tempos de carnaval... Hora Ubatuba, hora Guarulhos, amigos e lembranças... Senti uma infinita saudade da Bebel, minha irmã - partilhamos desses momentos juntas. Terezinha Romano veio de Táxi, ainda bem, conversamos até o galo cantar. 


domingo, 19 de maio de 2013

Jamanta e Bico Fino


Jamanta é um cachorro Vira-Lata, todo preto e tem esse nome porque é um tanto gorducho. Cativante e amigo adora se deitar na soleira da barbearia de seu Manuel, lá todo cliente que entra o trata de forma peculiar, pois Jamanta recebe as pessoas com seu rabo cumprido abanando alegria e participa das conversas atento. Seus olhos pretos parecem uma jabuticaba, quando ouve algumas palavras - comida, vamos dar uma volta e como está bonito - faz festa e mais festa... Parece que entende! Simpático, fica horas no seu banho de sol, Jamanta adora quando percebe que o assunto é ele, aí ele entorta o olhar e levanta as orelhas se fingido de morto. Seu Manuel comentou outro dia que era frequente o sumiço do “moço”, às vezes sumia por mais de uma semana, principalmente ás sextas-feiras... Passava o fim de semana sem noticias e se preocupava. Mas Jamanta era mesmo do mundo, ele já tentara leva-lo para sua casa, em vão, o danado dava um jeito e sumia...

Bico Fino, era assim que Dona Marlene chamava seu cachorro de estimação, todo preto e com  focinho cumprido e pelos arrepiados na cabeça, fazia o maior sucesso. Bico Fino sabia do seu carisma e conseguia ganhar muitos ossinhos e brinquedinhos, tinha vida de paxá, era o rei da casa, não podia chegar alguém que ele colocava sua barriga para cima... Mesmo sendo vira–lata se portava como lorde. Ganhava uma atenção de filho, melhor ração, banho e tosa... Estava sempre limpo e perfumado. Como era esperto, seus olhinhos, as vezes só o branco dos olhos ficava a mostra e entendia tudo. Bico Fino tinha certas manias, adorava dar umas voltas, deixava Dona Marlene quase louca, sumia por horas, mas sempre no final da tarde regressava, parecia descansado e feliz.

 Um belo dia Bico Fino sumiu mesmo, não voltou no horário que sempre retornava. Nesse dia Dona Marlene não pregou os olhos, melhor dizendo, chorou até não ter mais lagrimas. No dia seguinte começou sua peregrinação, andou por toda vizinhança, mas ninguém sabia do tal Bico Fino. Tentou ir mais longe, foi quando deu de cara com o danado, ele assim todo bonachão no seu banho de sol... Furiosa deu de cara com seu Manuel, que contava as últimas peripécias do seu Jamanta: “Veja o Jamanta ficou a noite toda dentro da barbearia, dormindo como anjo, nem se levantou quando fechei a porta, parecia que queria  mesmo ficar por aqui”, era o papo do dia.

Marlene entrou na conversa: “Esse cachorro é meu, meu senhor!”. “Não é possível, senhora, ele passa todas as tardes comigo, é meu companheiro!”. Bem se via que a disputa estava começando e lá o cão fingia que não tinha nada com isso. Por horas e nada de uma decisão, Seu Manuel vermelho e suado não entregava o Jamanta, dona Marlene já tinha tentado todas as artimanhas para que o Bico Fino a acompanhasse... Na confusão foi juntando plateia... Uma loucura! O que fazer?

 Do outro lado da rua um Padre que observava a história resolveu se intrometer: “Por que não deixam como está?”. Marlene e Manuel torceram o nariz, o cão num ato repentino se levantou e começou a lamber o padre e abanar o rabo, foi como se dissesse, alguém aqui tem sensatez. Depois disso, como Bico Fino acompanhou Marlene até sua casa. Na manhã seguinte como Jamanta, esperava Manuel na porta para abrir a barbearia. Disso tudo surgiu uma nova amizade, Seu Manuel sempre recebia a visita de Dona Marlene, ela gostava de levar para ele seu doce predileto, ambrosia...  Começou a pintar um clima!






sábado, 13 de abril de 2013

Ela é dona do jogo


Estou no aconchego dos meus pensamentos, a água morna da torneira lava a espuma do detergente, então nos meus devaneios, sinto uma baforada que me assusta, é Zenaide... Chega nervosa para contar: “Menina, Marco Aurélio intrometeu um soco no sínico do meu prédio, sabe?!” Me conta assim, como se eu conhecesse os protagonistas da história!

Zenaide - com todo respeito - vai contando e eu formando imagens... Nesse momento seu rosto se transforma na cara de um espantalho - aqueles que espantam os pássaros em hortas e jardins - é que seus olhos arregalados, seus cabelos despenteados e a vassoura que traz nas mãos me levam à história do "Magico de Oz".

Ela tem sempre uma novidade, até já viu disco voador.  Limpa a casa, narrando tudo que está fazendo: “Vou virar sua mesinhaaaa!”; ”Vou ‘alimpar’ o ‘vridro’!”; “Vou molhar suas ‘prantinhas’ pra você ficar contenta.”...

Nunca acerta meu nome, me chama de Cleotilde o tempo todo... Outro dia perguntou por que eu não me chamava Cleópatra, já que era mais bonito... Ontem, na hora de se despedir, me viu desformando um pudim e toda sorridente comentou: “Nossa, Cleotilde  tá aspirada hoje!”.

Aspirada fico com as historias da “mulé”, me contou até que um dia estava no ponto de ônibus e um tarado a “futucou”. Indignada perguntei: “O que você fez?” “Ah, Cleotilde, nada, ele era bonito!”. Ai, ai, ai... Coisas de Zenaide!