sábado, 13 de abril de 2013

Ela é dona do jogo


Estou no aconchego dos meus pensamentos, a água morna da torneira lava a espuma do detergente, então nos meus devaneios, sinto uma baforada que me assusta, é Zenaide... Chega nervosa para contar: “Menina, Marco Aurélio intrometeu um soco no sínico do meu prédio, sabe?!” Me conta assim, como se eu conhecesse os protagonistas da história!

Zenaide - com todo respeito - vai contando e eu formando imagens... Nesse momento seu rosto se transforma na cara de um espantalho - aqueles que espantam os pássaros em hortas e jardins - é que seus olhos arregalados, seus cabelos despenteados e a vassoura que traz nas mãos me levam à história do "Magico de Oz".

Ela tem sempre uma novidade, até já viu disco voador.  Limpa a casa, narrando tudo que está fazendo: “Vou virar sua mesinhaaaa!”; ”Vou ‘alimpar’ o ‘vridro’!”; “Vou molhar suas ‘prantinhas’ pra você ficar contenta.”...

Nunca acerta meu nome, me chama de Cleotilde o tempo todo... Outro dia perguntou por que eu não me chamava Cleópatra, já que era mais bonito... Ontem, na hora de se despedir, me viu desformando um pudim e toda sorridente comentou: “Nossa, Cleotilde  tá aspirada hoje!”.

Aspirada fico com as historias da “mulé”, me contou até que um dia estava no ponto de ônibus e um tarado a “futucou”. Indignada perguntei: “O que você fez?” “Ah, Cleotilde, nada, ele era bonito!”. Ai, ai, ai... Coisas de Zenaide!

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Visita ao senhor



A sala está na penumbra, sento ao seu lado, sua mão ainda forte se entrelaça com a minha, há apenas a sintonia das nossas almas. Pela tela da televisão apagada, o reflexo em branco e preto faz com que eu o observe. O relógio de Parede toca suas seis badaladas, hora dos Anjos.... Percebo que ele reza baixinho sua oração predileta: Ave-Maria.

Me lembro dele moço, declamando para nós sua primeira poesia, insisto para ele declamar novamente, por um momento ele se empolga: “Pelo escuro da rua estreita ninguém me vê... Não me lembro mais!” E eu digo: “E o lampião e o vaga-lume que enroscou no seu sapato?”. Repete: “Não eu mão me lembro, faz tanto tempo!”

Um dia me disse da fragilidade da vida: “A vida é um fio delicado...”. São os acordes tocados em seu Violoncelo que ecoam agora em sua memória... Sua canção predileta - “Reverie”, de Shumann - que, nas cordas desse instrumento, o deixa nostálgico... “As vezes sinto o afago das mãos da minha mãe no meu rosto e a voz do meu pai”, me confessa timidamente. Diz ainda da saudade da sua esposa e dos filhos, sua maior conquista, frutos colhidos que se multiplicaram.

Há uma dor em seu olhar, posso escutar sua voz embargada, seu choro triste... Vem a noite, nasce o dia, ele é um homem cansado da vida, uma árvore centenária com raízes fincadas no solo, não há mais água para sevá-lo.... Sem frutos para colher.


Me diz, agora, o que ele espera da vida: “Espero todos os dias o relógio tocar as seis badaladas, hora dos Anjos... Espero que eles venham em revoadas, com suas flautas e harpas. Quero voar e ser novamente feliz!”.

sábado, 30 de março de 2013

Feliz Páscoa!!!



Sexta-feira Santa, lembro do céu desse dia, era sempre cinza, era um dia mudo, sem música. Mamãe dizia: “Hoje lembramos o dia da morte de Cristo!”. O sábado trazia resquícios da sexta–feira da paixão, o céu não estava totalmente claro, mas a morte de Cristo ainda era motivo de silencio. Manhã de Domingo, papai nos acordava de maneira afetuosa, falava assim: “Olhem o que o coelhinho trouxe!”. Nós pulávamos da cama, nossos olhos brilhavam... “O meu é vermelho”, mas tinha azul, verde, amarelo.... uma porção de ovos coloridos! E pelo caminho cenouras mordidas, não é que o coelho esteve por lá!

Papai gostava de nos reunir nessa data. Íamos para o quintal de casa, era um quintal cheio de árvores, Acácia Mimosa era a sua preferida. Acho que suas flores amarelas e seu perfume davam um toque especial e lá fazíamos uma pequena Missa, ao som do violino tocando Ave-Maria, ficávamos em silencio, escutando as palavras saídas do coração do meu pai, era singelo esse momento, nos confraternizávamos.

Mamãe colocava uma toalha branca com uma estampa bem delicada, minúsculas rosinhas rosas de miolinhos amarelos, sobre a grama ainda molhada de orvalho... Mamãe caprichava, nos servia um delicioso café da manhã. O perfume do café atraia até os passarinhos, que atentos esperavam as migalhas dos pães e restinhos de bolo.

 Olhos azuis da minha mãe se divertiam, olhos azuis que riam... É o que eu tenho mais saudade, desse rizo maroto nos olhando enquanto corríamos, corríamos entre as copas das arvores e os raios do sol! Assim eram nossos domingos de Páscoa!

sexta-feira, 15 de março de 2013

O pão nosso de vários tempos



“A canoa virou, por deixar ela virar, foi por causa da vovó que não soube remar!” Fim de tarde, os meninos subiram da quadra onde estavam jogando bola. Enrico e Enzo são meus netos, Enrico tem seis anos e o Enzo tem três, os dois são filhos da minha filha mais velha, Ana Carolina.

 Então, Enrico e Enzo subiram suados e esfomeados: “Vovó quero pão na chapa!”. Llá fui eu fazer pão na chapa... Hum que delicia! Quando cheguei na sala com os pãezinhos devidamente “chapados” - sim pães na chapa, a frigideira precisa estar bem quente, se coloca manteiga (gosto muito da manteiga Aviação), manteiga derretida, então lá vão os pãezinhos abertos para dentro da frigideira, por uns minutinhos e ficam deliciosos! Enquanto os pães estão sendo preparados, água para ferver, pois pão na chapa combina perfeitamente com um café feito na hora!

Escuto a Carol comentar com os filhos: “A Vovó fazia todo dia pão na chapa para o tio Lu, tia Cacau, tia Ia e para mim... A gente adorava! Viajei na saudade, fui parar na rua Apinajés... Meus filhos eram pequenos, tempo bom, me visualizei entrando na sala com os famosos pães na chapa para as crianças, na época chamávamos de canoinhas. Toda manhã minha casa se transformava em uma verdadeira lanchonete, os quatro ficavam sentados no sofá assistindo os desenhos da época aguardavam o café da manhã. Cada um escolia o que queria comer, preparava um mingau  de chocolate , as vezes fazia bolinhos de chuva... Era tão bom que hoje, contando assim para vocês, senti o cheirinho do pão fritinho na manteiga... Fui mais longe, muito mais longe nas minhas lembranças...

Eu era pequena, minha avó Clotilde também fazia pão na chapa para nós netos. Eu também adorava! Agora me vem o barulhinho da manteiga derretendo, que delicia!  Volto na infância, no tempo que se foi, mas as lembranças habitam meu coração... Refletido no espelho do guarda-louça da vovó Beatriz, minha outra avó. Vejo os pães doces e a manteiga Aviação, a embalagem era uma lata, precisava usar até um abridor para abrir... Sinto o perfume desse tempo, tempo de descobertas.

“Nós queremos uma valsa , uma valsa para dançar, uma valsa que fale de amor, como aquela dos patinadores. Vem meu amor, vem meu amor, um passinho pra cá, um passinho pra lá,  a mamãe quer dançar com o papai.” Lembranças da vovó tocando piano, tempo de tantos sonhos!

sábado, 2 de março de 2013

Amor predileto




Quero falar de uma coisa.... Uma vez, há muito tempo atrás, conversava com Ana Maria e Luís Fernando... Acho que há uns dez anos atrás.... Lembro bem da cena!

Estávamos jogando conversa fora, deitados na minha cama, nós três. Eu era uma eterna pedinte de cafuné e a Ana Maria, sempre muito disponível para esse carinho gostoso... Fazíamos uma troca, uma hora ela me maquiava e outra hora eu a maquiava, tudo virtual, a base cor terra-montanha, pó de Arroz branco nuvem e lá íamos inventando moda... Tudo para receber um carinho no rosto. Lembra filha? Sinto muita saudade desse tempo passado, mas marcado para sempre!

 O Lu, o próprio aprendiz, me falava da sua empresa, Viação da licença... Seus ônibus e seus sonhos de madrugar para conhecer São Paulo, era para ele uma alegria conversar com os motoristas, seus amigos Zé, Bahia, Mineiro... Pegava ônibus e ia até o ponto final, depois contava todo feliz das viagens e dos amigos que fazia.

Bom voltando para o cenário dessa historia, veio um assunto um tanto questionador. O Lu comentou que a Maria Claudia, Cacau, é a filha predileta da mamãe. Virou a Ana Maria e disse não , o filho predileto é você Lu. Minha curiosidade me fez ligar na mesma hora para Cacau , ela estava voltando da faculdade, e pelo celular perguntei: “Cacau, quem é meu filho predileto?” Ela respondeu: “A Ia!” Liguei para a Carol e fiz a mesma pergunta: “Filha, qual é meu filho predileto?” Ela me respondeu na cara dura: “Sou eu!”. Achei o máximo sua segurança do meu amor!

Foi divertido saber dessa avaliação tão íntima de cada um dos meus filhos, porém, sem concordar, pois acho que amo de forma idêntica. Cada um é amado de forma única, mas na mesma intensidade... O amor é individual, mas seguramente igual!!!

Hoje, estávamos na casa do meu pai e surgiu mais uma vez esse assunto, pois meu pai tem seis filhos. Eu comecei a contar para ele e a Carol como eu havia sido conquistada, digo assim, qual foi o momento que eu realmente fui fisgada pela flecha do amor materno. Cada filho foi olhado de forma, não apenas pelo fato de ser mãe e ser cumpridora desse amor inerente, mas quando me dei conta do que cada filho me trazia... Um olhar, um sorriso, um abraço e que não poderia mais viver sem a história pessoal de cada um deles. Relembrei também a resposta que ela me deu na ocasião... Ela morreu de rir e me disse assim: “Não acho mais que eu sou sua filha predileta, seu filho predileto é o Lu!” Como ser mãe é difícil!

Bom, perguntei para ela: “Filha de quem você gosta mais, do Enrico ou do Enzo?” E tenho certeza que sua resposta foi sincera e de coração: “Amo os dois da mesma forma!”. A minha resposta também é a mesma: Mamãe ama seus filhos e agora mamãe virou avó... E o que dizer desse sentimento? Amo meus filhos e netos!

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Abrindo o jogo



Terezinha Romano, ai amiga... Depois de tanto assunto, fiquei pensando no número de vezes que surtamos e fazemos coisas muitas vezes trágicas. Lembrei de que há anos atrás, quando minhas filhas eram bem pequenas, me encontrava no auge de uma enorme exaustão. Na hora de preparar as três mamadeiras, em vez de colocar açúcar, coloquei detergente! Lembro que chorei, chorei.... Elas não tomaram as mamadeiras, graças a Deus, percebi a tempo.

 Essas coisas que fazemos muitas vezes por excesso de distração me faz lembrar da noite que fui rezar com as crianças - Carol, Cacau, Ia e Lu - era um costume nosso. Nessa época passava na Globo uma novela que tinha como tema de abertura a musica Love is in the air e eu ficava cantando o tempo todo essa música. Bom, voltando a reza, fui puxar a primeira oração e comecei: “Love is in the air...” No mesmo tom do Pai nosso... Imaginem como ficou! As crianças caíram em gargalhadas... Foi hilário! Será que isso tem explicação? Acho que estava mesmo no ar! Pelo menos a sintonia do amor.

Sabe, eu tenho uma pendência com meu pai, por causa dessas apagadas que temos de vez em quando... Quando eu tinha uns três aninhos, portanto era praticamente um bebê, morávamos numa cidade do interior de São Paulo, Descalvado. Meu pai foi passear comigo na praça da cidade e lá encontrou um amigo, conversa vem conversa vai, e pirirí e pororó... Papai se despediu do amigo e simplesmente foi embora. Quando chegou em casa minha mãe perguntou: “Cadê a Clotilde*?” (*Isso é nome de um bebê? rs) Ele tinha me esquecido na praça! Até hoje eu brinco, se ele tem certeza que “resgatou” o bebê certo... Falo assim: “Pai quem garante que eu sou mesmo a Clotilde?” 

Coisas assim acontecem, sei de um caso interessante... Acho que já contei num outro texto, mas toda vez que lembro, choro de rir! Foi no dia que Edna foi pegar uma carona com Irati. Edna deu a volta no carro, ia sentar bem atrás de Irati, no banco do passageiro, pois na frente já tinha outra pessoa, pois é, ela deu a volta, mas a Irati esqueceu da “carona” e  arrancou com o carro e ainda passou por cima do pé da Edna. Lembrei ainda do dia que Irati estava passando roupa - o ferro estava bem quente - o telefone tocou e Irati num impulso colocou o ferro na orelha. Sua orelha quase virou torresmo! A Irati tem muitas histórias. Em um outro caso inesquecível, depois de chegar em casa com seu guarda- chuva encharcado, pois caia uma tempestade, percebeu um bilhete sobre a mesa. No momento que foi ler o papel abriu novamente o guarda-chuva em vez de pegar os óculos. Doida de mais!

Terezinha Romano, olha como é a vida... Fazemos verdadeiras loucuras! Ainda bem que para esses pequenos espasmos de memória, as consequências são as divertidas lembranças... Precisamos estar atentos, serenos e nunca perder a alegria de ser feliz!



sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Só para mulheres




Bom, não sei como contar essa historia... Como diria Dona Morena: “real e verídica”. Mas é tão surreal que vou mudar a identidade de quem me contou. Quando pedi autorização para escrever sobre isso, ela me faz jurar que jamais revelaria seu nome, por isso baseado na personagem Frô, da Marianna Armellini em Guerra do Sexo, escolhi um nome fictício...

Terezinha Romano, amiga da vó da Carmem, foi a uma consulta rotineira a sua ginecologista, saiu de lá com uma lista enorme de exames, exames de imagem e de sangue. Prometeu fazê-los... Ao regressar com os resultados sua medica constatou uma pequena infamação nos seus países baixos, o que não é nada fora do normal, nada de mais... Tirando o “probleminha” estava quase boa , uma leve osteopenia no fêmur, colesrerol um pouco alto, diabetes controlado e seu triglicérides alterado... Tirando esses pequenos detalhes, estava tudo perfeito. Que bom!

Dra. Ângela, depois de espiar todos os resultados, tirou seus óculos, pegou seu receituário e começou a prescrever alguns medicamento. Na medida que ia escrevendo, olhava para Terezinha Romano e explicava como usá-los. Terezinha Romano bem atenta não perdia nada. No final, Dra. Ângela pediu sua atenção especial, estava passando para ela um procedimento para seu problema inflamatório - aquela nos países baixos. O remédio seria assim, uns óvulos bem grandes e uns outros comprimidos para serem usados durante uma semana, entendido? Sim!

Terezinha Romano saiu do consultório, passou na farmácia e pensava começar o tratamento naquela mesma noite. A noite chegou... Ela abriu a caixa dos óvulos, achou estranho, tinha um aplicador, não entendeu muito bem, mas o guardou novamente na caixa. Seguindo a orientação de sua médica, pegou dois óvulos e foi até a cozinha buscar um copo de água... Depois de um gole grande e de um engasgo quase mortal, aos poucos foi conseguindo engolir.

Enquanto aquilo descia pela garganta, começou a lembrar do aplicador... Foi quando, como um flash, lembrou do que Dra. Ângela havia falado... Já era tarde demais! Terezinha Romano ficou em pânico... O buraco era mais embaixo. Quase foi para o hospital, mas constrangida, preferiu ligar para a médica que a tranquilizou: “Acidentes acontecem, querida.”

Conto isso, um pouco vexada, vergonha alheia... Disse para minha amiga que também já fiz algumas confusões, coloquei um produto para higienizar verduras, a base de cloro no meu nariz... Achei que era Sorine!  Morremos de rir... Tomamos um café gostoso e o papo foi longo, tínhamos muitas historias para contar!