sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Ao som de Prelúdio


Sentada em sua cadeira preferida, Dona Francisca, de olhos fechados, sonha com os tempos coloridos da sua vida. Muitas vezes prefere ficar assim, de olhos fechados, como se pudesse ressuscitar as vozes, os passos e quem sabe os dias felizes que ficaram pra trás.  
          Dona Francisca gosta de dizer que tem 88 anos, ela mesma se surpreende com a sua idade, não  gostaria de estar velha e tão pouco de precisar do auxílio de cuidadores. Ela, que era tão independente, hoje se vê quase cega e com sérios problemas na coluna, perdeu  o timão do seu barco e tudo ficou a deriva.
          De olhos fechados consegue voar, talvez sonhe com seus filhos quando ainda eram crianças e juntos se reuniam à mesa de jantar para saborear sua comida, comida de mãe feita com tanto carinho. Hoje seus filhos já estão adultos, cada um num lugar diferente, não é mais tão fácil reunir toda família, os netos ela adora, também já tem quatro bisnetos... Quem diria que veria tudo isso?
          Seu marido partiu há alguns anos atrás e ela está viva, mais ou menos viva, como costuma dizer, sente tanta saudade, saudade que dói e não tem remédio que cure.
          Dona Francisca segura a minha mão... “Mão de menina”, fala com sua voz um pouco fraca. Sinto o esforço que faz para não perder a conexão com a realidade... Ela me pede com carinho para que eu a visite, se sente muito só e eu sinto a sua solidão. Novamente segura a minha mão e pergunta se sou feliz, digo que sim e ela sorri.
           Me fala também da música que estamos ouvindo: “É do Vinicius de Morais, Prelúdio de Amor, linda musica”. Ainda pergunta: “Ele já morreu?”. Digo que sim e ela fecha novamente seus olhos e reflete: “Para onde ele foi?”.
          Fecho meus olhos pois não sei a resposta, tenho que ir Dona Francisca... Ela me pede, com seus olhos quase sem luz: “Fica!”. Seguro suas mãos tremulas e prometo que volto amanha...


domingo, 10 de novembro de 2013

Profissão: Mãe



Sônia andava nas nuvens, imaginando a roupa que iria usar no jantar de homenagem ao presidente da multinacional que seu marido trabalha. Ela, que quase não faz programas diferentes, com esse convite não parava de sonhar! Digo isso, pois Sônia era dona de casa e mãe de três filhos pequenos.  Afastada totalmente do meio corporativo, seu mundo atual era de fraldas e mamadeiras. Vivia de roupa de ginástica, tênis, cabelos presos e sem nenhuma maquiagem... Falta de tempo total!

Adorava ser mãe, mas também sentia falta do glamour dos seus saltos altos de outrora. Sônia era professora e quando seu primeiro filho nasceu parou de trabalhar, quando pensou em voltar engravidou de gêmeos, ficando impossível retornar a antiga rotina.

Pediu então para Dona Margo, sua sogra, dormir em sua casa no dia tal festa, havia feito um regime, mas mesmo assim não entrava em suas roupas, precisava de roupas novas, ir ao salão de beleza, se produzir, se sentir bonita e notada.

O Jantar num hotel de luxo já mostrava a elegância do evento, mulheres lindas, homens bem vestidos, flores, velas, música, tudo perfeito. Mas o grande momento foi o convite do Dr. Vinicius, que pediu para que ela se sentasse ao seu lado. Ela gelou por um momento... O que iriam conversar? Sobre papinhas? Sobre a fadinha do dente? Ou de noites mal dormidas?


Dr. Vinicius, logo de cara, fez um elogio ao marido Raul: “Bem que se diz que atrás de um grande homem existe uma linda mulher”.  Já relaxada, apreciava agora o jantar que se iniciava. Primeiro um coquetel de frutas com camarões e uma bela salada verde, logo em seguida um medalhão com peras tingidas de vinho. 

Papo vem, papo vai, um prosecco geladíssimo aqui, outro lá e aconteceu o inevitável! Sônia assumiu o comando. Pegou o prato do Dr. Vinicius e, como para uma criança, cortou em pedacinhos o medalhão. O chefe do marido, vendo a situação, se aproximou dela e perto do ouvido sussurrou : "Agradeço a gentileza, mas eu sei cortar.". 


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Encontro marcado

Ana coloca uma música, tudo pronto para aquele momento especial, a mesa posta com capricho, a louça rosa de porcelana inglesa e a toalha de renda branca. Sobre a mesa um pequeno arranjo de mini rosas coloridas enfeita e perfuma a sala de jantar, copos de cristal e um porta-gelo de prata no aparador completam a decoração. Há muito tempo ela espera por esse momento, quase 20 anos, seu coração esta em festa...

Quando conheceu Eduardo teve a certeza de que já se conheciam, pensava até que era de outras eras, de outras vidas, mas apenas se encontraram nos olhares e sorrisos e nada mais... ficou o sonho! Cantarola uma canção: “Hoje eu quero a rosa mais linda que houver e a primeira estrela que vier, para enfeitar a noite do meu bem...”

O interfone avisa, ele chegou... Ana sente suas mãos molhadas, um frio congela sua alma, Eduardo a abraça e com lindas flores silvestres a presenteia... Quanto tempo! Conversam sobre tantas coisas, contam suas historias do passado, riem das banalidades da vida, do que construíram e a noite prossegue com suas estrelas e luar. Seus olhos ainda se encontram, os sorrisos são os mesmo de antigamente. Eduardo convida Ana para dançar, uma música do passado, poderia até ser a música deles... Não sei! Suas mãos se procuram, se enlaçam, era muita saudade...


domingo, 4 de agosto de 2013

Para sempre...


Hoje acordei com saudades de você, senti sua presença e tive muita vontade de te escutar, saber como vai, segurar na sua mão, fazer um carinho... Faz tempo não é?

Foi numa manhã que seus olhos se fecharam e a despedida foi algo que até hoje não sei explicar, pois ainda tenho dificuldade de exteriorizar. É como se quisesse pular esse capítulo, mas mesmo assim sei que foi no dia 9 de maio de 2009 que senti essa dor doída, a dor de ficar órfã.

Sempre que sonho com você, você está feliz e seus olhinhos azuis ainda estão curiosos, acordo e fico contente: te vi, te vi, te vi... Mas hoje foi diferente, sonhei que o papai, você e nós filhos estávamos num gostoso bate-papo, falando coisas comuns, noticias de agora, você ria, sua rizada ecoava dentro de mim, tive total sensação que eu ria também, era tão real que acordei rindo, saudade, saudade, saudade...

Mãe, de repente você ficou tão longe, de fato não te escuto mais, você não me telefona, nem vai me visitar, como fazia antigamente. Adorávamos tomar café, ouvir seus CDs, você era tão apaixonada pela suas músicas... E intensa nos seus sentimentos, que até hoje quando seus netos e nós filhos escutamos certas musicas, nem precisamos falar, basta um olhar, já sabemos de quem estamos lembrando.

Numa manhã, tão bonita manhã, véspera do Dia das Mães, te levamos para um jardim, ele estava coberto de flores, flores para te receber, nossas lagrimas te molharam... Um silêncio, uma ausência, você não estava mais lá. Hoje quando nos encontramos no sonho, mesmo que bem rápido, pude te sentir... Seu calor, seu aconchego... Por um instante você estava aqui!


terça-feira, 25 de junho de 2013

Um minutinho comigo


Há quanto tempo não me encontro, não me sento comigo e não rio de mim mesma. Presto atenção na moça do ponto de ônibus, calada e triste. Penso: Quais os sonhos que a encantam? Reparo em casais sentados à mesa de restaurantes, silenciosos e distantes, penso no significado daquele encontro. Viajo no metrô olhando as pessoas, vou construindo histórias, imaginando o porquê da pressa de cada um, a correria da vida, o colorido das roupa e o quanto o meu semelhante é diferente de mim... Digo isso pois bem pequena me ensinaram que nós éramos imagem e semelhança de Deus....  Intrigante, muito intrigante... Vejo um mar de pessoas que se esbarram e nem ao menos se reconhecem. Também não me conheço!

Interessante imaginar o quanto me tornei distante de mim, talvez seja bem mais difícil olhar para si mesma, olhar para dentro, dar uma espiadinha, ter um contato imediato, varar os porões abarrotados  e cantos vazios. Quem sou eu?! Do que mesmo gosto? O quanto sou espontânea e verdadeira, me respeito? Faço jogos para viver, qual é o papel que represento, sou imagem do Criador? Onde está o melhor de mim? O que é o melhor de mim? Não sei.

Na frente desse espelho que me reflete a um ser, uma mulher, me observo. As marcas evidentes do tempo, meu sorriso, meu olhar, posso fazer várias caras e bocas... Prendo o cabelo, passo batom, pinto meus olhos, falo comigo, canto... Como é bom cantar! Dentro de mim, às vezes não há vontade cantar e nem sorrir, há um silencio secreto, há sonhos e fantasias adormecidas, falta tempo e espaço. Olho para mim de forma penetrante, como se pudesse mergulhar nesse universo... É uma caverna, cheia de cristais sedimentados, é o  meu lado avesso, sem maquiagem  sem retoques.

Psiu, psiu... Quero falar com você, escutar sua voz, dividir nossas metades... Que idade tem? Qual é a sua maior saudade? Onde está seu medo? Faz tempo, muito tempo que não  nos vemos, acho que vai me estranhar... Não tenho mais 20 anos!


terça-feira, 18 de junho de 2013

Passeando pelo passado




Estava arrumando uma gaveta, aquela que guardo fotos antigas, cartas com registros de coisas já sentidas... Gosto dessas lembranças, me surpreendo com essas recordações como se estivesse vendo pela primeira vez... Sempre me emociona! É onde guardo o passado, mas, toda vez que o visito, um sentimento presente me carrega para o futuro, pois tudo isso faz parte da minha bagagem, levarei comigo para eternidade...

“Minha querida Clotilde, Saudosamente estou lhe ofertando a inclusa foto instantânea da nossa juventude. Foi ela produzida em uma tarde de domingo de 1975 em frente ao Cine Gazeta, lembra? Fomos assistir a Opera Rock, Tommy.  Éramos  jovens e confiantes, o mundo era nosso... Você usava calça Lee, uma bata indiana cor de pêssego e uns tamancos bem altos, de cor marrom, era a ultima moda, plataforma escandalosamente alta, mas a gente se sentia gigante, só faltávamos voar, tudo era azul, me lembro do céu dessa tarde, inesquecível céu dessa tarde... Uns hippies mostravam seus trabalhos na mesma calçada e tiramos algumas fotos juntos, poesia pura, paz e amor! Nada menos que três décadas ultrapassaram essa data, toda via fatores circunstanciais ao longo do tempo tolheram nosso convívio quase diário...”


E assim gravado na minha memória, pinceladas desenham toda essa caminhada de tantos anos, atrás, faço esse mesmo trajeto, meu peito se aperta, saudade! Guardo novamente essa carta, ela não é apenas uma carta, ela é o termo de garantia dessa a  amizade que carrego cimentada no meu coração feito joia rara.



sábado, 25 de maio de 2013

Um dia assim


Sexta–feira, dia 24 de maio

Chego no Salão, hoje é o dia da beleza. Três da tarde, faço minhas unhas com a Teca e o que mais precisar... Lá encontro com minha amiga Deolinda e papeamos bastante, no meio de tudo isso chamo o Carlos, ele é o cabeleireiro e dono do salão, e mais ou menos sigilosamente e meio constrangida confesso: “Carlos, todas as vezes que me sinto com problemas existenciais, pego uma tesoura e faço um estrago no meu cabelo,  queria que você desse um jeito...”. Ele olhou para mim e bem piedosamente falou: “Sabe o que faço nos meus dias de problemas existenciais? Eu pego a tesoura  e minhas clientes saem felizes daqui”. Tipo Eduard mãos de tesoura... Achei ótimo!

Olha que me senti linda, acho que o espelho do Carlos já é preparado para elevar a autoestima de suas clientes. Bem na frente do espelho havia um tubo bem grande de laque e não pude acompanhar todo o processo de repaginação, mas quando pedi licença para retirar aquele tubo me senti de alma nova.

Saí correndo do salão, já era quase noite e ainda precisava passar no mercado pois Terezinha Romano ia jantar na minha casa... Tínhamos combinado que ela levaria o antepasto e a sobremesa e eu cuidaria do resto. Como estava frio, iria fazer uma bela sopa de abobora, com peras e queijo gorgonzola, deliciosa e bem apropriada! Fiquei encarregada de comprar algumas garrafas de vinho tinto, andei xeretando algumas sugestões no face do meu amigo Lenine Marcato, ele tem uma forneria em Guarulhos, cidade bem perto de são Paulo e pelas suas postagens, pratos que engordam só de olhar e vinhos que dão agua na boca... Sempre ótimas dicas!


Ontem a temperatura estava bem fria, da varanda do meu apartamento o céu era da cor de um jeans bem escuro e as nuvens borravam a escuridão. Conversa vai, musicas antigas, não sei porque sempre opto por escutá-las, não sei, mas fiz varias viagens no tempo, hora Tietê, lembrei das minhas lindas primas Ilze Maria, Ilka e Ieda - nos nossos tempos de carnaval... Hora Ubatuba, hora Guarulhos, amigos e lembranças... Senti uma infinita saudade da Bebel, minha irmã - partilhamos desses momentos juntas. Terezinha Romano veio de Táxi, ainda bem, conversamos até o galo cantar.