quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Porta retrato


Sobre a mesa de canto, me chama a atenção a  fotografia em branco e preto, era de uma família de revista, todos de branco, sorrisos,  felicidades compartilhadas. No sofá Marina esticada, pois sua coluna esta toda partida, pudera, trabalhou o fim de semana inteiro... A festa do final do ano foi por conta dela - Ela adora receber. Mas me conta que valeu a pena!


Agora tenta descansar se alongando no delicioso sofá de veludo verde garrafa. Somos amigas a tanto tempo que não existe cerimonias entre nós. Estava devendo mesmo uma visita a ela, acho que depois que fui morar fora do Brasil, fui visita-la só uma vez. 
Conheço Marina desde a quinta serie da escola, fizemos o ginásio e o normal  juntas, amigas e confidentes! Marina se casou primeiro e tem duas meninas, na verdade duas moças, lindas, já são casadas. Marina tem quatro netos.

Sobre a mesa do canto, a fotografia linda em branco e preto me causa uma pontada de inveja... Que sentimento mesquinho, nunca deveria  ter inveja! Moro em Paris, sou jornalista de um grande jornal, falo línguas, estou sempre indo e vindo, minha vida de viajante. Quem não queria? Mas Marina me parece tão encantada com a sua vida, com o seu mundo.

Marina foi a noiva mais linda que já vi, Carlos o homem mais cobiçado da cidade, dono de varias fazendas... Eram feitos um para o outro! O casamento foi lindo, a festa de uma fartura, tudo era perfeito,igual a fotografia do porta-retrato...

Novamente meus pensamentos pequenos. Foi uma escolha minha, afina não pensava em casamento e também não queria filhos. Me encantava a vida, tinha sede do mundo, das histórias, dos lugares!

Marina ainda tem uma beleza jovem, as vezes sorri como menina, fala alto, ri de maneira gostosa, é alegre, uma vida feliz... Fico um pouco atordoada, confusa, mais uma vez penso que poderia ter sido assim a minha vida. Marina teve um sonho tão simples e o meu sonho tão elaborado, estudei, fiz curso e mais cursos, não tenho um porta-retrato na minha mesa de canto...

De repente Marina se levanta do sofá e me olha, o seu olhar agora é serio, fechado, me diz de forma quase silenciosa: "Estou me separando  do Carlos, ele tem outra mulher!". Minha amiga tão frágil, tão só, no seu sofá de veludo verde garrafa... Não vejo mais o lindo porta retrato!


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