sábado, 12 de abril de 2014

A criança que habita em mim


Mamãe dizia: “Você é muito sentimentalista (uma  boba)”. Lembro do nó na minha garganta, tudo doía muito, uma sensibilidade que precisei  engolir num choro e desengasgar logo em seguida, para poder crescer...

Os adultos se esquecem que já foram crianças ou apenas fingem que nada existiu... Guardado num porão, junto de discos e revistas,  a infância fica  lá esquecida, como se fosse uma muda de roupa que não te serve mais. Uma mala jogada num canto qualquer, cheirando passado, sem cor, sem voz, longínqua e solitária. A Infância amadurece e muda de nome...
As crianças sofrem, tudo é muito misterioso. Ela curiosa precisa entender o mundo, a angustia é apertada e o medo é real.

Quando tinha uns sete anos, morava  numa cidade pertinho de São Paulo, em Guarulhos, lembro quando fui passar uns dias na casa da minha avó, no interior de são Paulo, em Tietê. Me recordo que a noite era um terror, pois tinha medo de dormir no escuro e a minha avó deixava tudo apagado. Só escutava os passos das pessoas andando na calçada, pensava que fossem os sapatos de salto alto da minha mãe, enfim, ela estava chegando para me buscar, não deixava minha avó dormir, bastava ela fechar os olhos para eu abri-los com as mãos, minha avó não aguentou, mamãe foi me buscar.

Lembro que quando estava no terceiro ano primário, uma coleguinha minha faltou por vários dias, sua mãe tinha morrido... Chorei de imaginar quem ela ia chamar de mãe quando precisasse de  um abraço, nunca mais ela teria o abraço quentinho da mãe, nunca mais... Engana-se quem pensa que criança não sofre crises existenciais. Que criança não tem insônia, dor de cabeça... No meu quarto de menina, imaginava que uma parede era a porta de um outro mundo, lá eu vivia um sonho encantado de castelos  e de bichinhos vestidinhos, onde todos eram amigos e se visitavam, meu refúgio e assim conseguia dormir...

Procurava a cama dos meus pais, o abrigo perfeito, meus pés ficavam quentinhos e meu coração se acalmava. Lembro bem de um fim de tarde, o sol se apagava no céu quase sem nuvens, me senti tão só, tão pequena, mamãe cuidava da minha irmã menor e eu tão desprotegida  naquele momento. Acho que estava  ventando e pela primeira vez senti a solidão. Voltar nesse tempo, que tudo parecia ser de ciranda, me faz lembrar que o anel que tu me deras era vidro e se quebrou e a rua de pedrinhas de brilhante não existe mais!

2 comentários:

  1. Excelente texto Clotilde. Jamais devemos deixar a criança que habita em nós morrer...."A criança que fui chora na estrada.
    Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
    Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
    Quero ir buscar quem fui onde ficou.

    Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
    A vinda tem a regressão errada.
    Já não sei de onde vim nem onde estou.
    De o não saber, minha alma está parada.

    Se ao menos atingir neste lugar
    Um alto monte, de onde possa enfim
    O que esqueci, olhando-o, relembrar,

    Na ausência, ao menos, saberei de mim,
    E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
    Em mim um pouco de quando era assim." Fernando Pessoa


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  2. Um terno e delicado texto.
    Muito gostoso de ler.
    Parabéns.

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