Bem jovem, Eupídio
se sentia muito importante. Vindo de família “quatrocentona”, guardava com ele, em pleno século vinte um,
traços de um mundo velho, um cheiro de naftalina e, pior, o ranço de uma tal síndrome chamada:
“Síndrome do Pequeno Poder”. Não tinha percebido até então que o mundo era
outro... Estranho imaginar que tão moço não escutava novas melodias, seu ouvido,
treinado, apenas gostava das canções que tinham rimas perfeitas e jamais percebia
que toda história tem dois lados, seu universo era resumido, engessado, se
concentrava em poder mandar... Mandava no seu pequeno castelo, no seu pequeno
reino, no seu pequeno regimento, pois lá ele era importante, era o Máximo era o
Dr. Paranhos!
DOUTOR
Paranhos, era assim que era chamado pelo seu staff, seu Jacinto, pessoa
simpática, cozinhava para a família Paranhos desde sempre. Conheceu Eupídio
pequeno, viu o menino se tornar o DOUTOR e tinha por ele um misto de respeito e
devoção. Também gostava de se gabar dizendo que sabia preparar os melhores ovos
beneditinos do mundo... Mas só fazia para o “seu” menino. Para Jacinto era Deus
no Céu e Eupídio na Terra... Só faltava adivinha os desejos de DOUTOR.
Seu Cintra era o motorista, mais fechado,
quase não falava, parecia um criado mudo, mas jamais se esquecia de colocar,
assim que Eupídio entrava no carro seu CD preferido, andou me confidenciando
que Dr. Paranhos não se cansava de ouvir a nova música do Rei a até sussurrava:
“Esse Cara sou Eu!
Dr. Paranhos e
seus mandamentos, era cumpridor de todas as regras, não falhava. Encontrei com
ele outro dia, tomava café absorto, achei um tanto pálido... Também, acho que
não tem tomado sol. Preferi ficar só
observando, pois sabia que se fosse conversar com ele, não teria nenhuma boa
nova para me contar e, o pior de tudo, usaria de seu português formal, como se
fossemos conhecidos de um tempo passado... Não estava disposta a escutar assuntos fora de moda, por isso nem
me atrevi a cumprimentá-lo.
Acho que ele
se esqueceu que os tempos mudaram e que o sonho, de cada um, é livre e da
cor de quem o pinta. Fico triste de imaginar que num mundo tão sem fronteiras
tem pessoas que ainda colocam molduras para demarcar espaços, sem dar oportunidades
de conhecer o lado belo que os olhos nem sempre alcançam. Dr. Paranhos, a vida
é bela!

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