sábado, 29 de outubro de 2011

Beatriz


Lá pelos idos de 1958, meus pais Isa e Paulo, minha irmã Beatriz e eu fomos morar em uma cidade do interior chamada Igarapava. Foi a primeira comarca do meu pai como juiz. Eu tinha um ano e a Beatriz era recém-nascida. Lá a vida andava tranquila, tínhamos bons amigos, a cidade era muito acolhedora. Havia uma família especial, Alves da Cunha, e para provar que esse mundo é pequeno descobriu-se um parentesco do meu pai com essa querida família, tornando os mais unidos. Beatriz fez um ano no dia 27 de outubro de 1959, um bebe alegre e expressivo, já encantava a todos! No dia 15 de dezembro, dias antes do Natal, Beatriz adoeceu e em três dias morreu. Imagino a dor dos meus pais, sozinhos, no momento mais triste de suas vidas...Tio Gilberto e Tia Leia Alves da Cunha, num gesto de grande generosidade, cederam o jazigo da família para enterrar o “corpinho” da Bea.
Passados dois meses deste triste episódio nasceu minha irmã Bebel. Depois de um ano, já morávamos em outra cidade, Descalvado, mamãe deu a luz ao meu irmão Francisco. Mesmo sem tocar no nome da Beatriz, sentíamos que havia uma dor continua na vida dos meus pais....depois veio o José Paulo, e  em 1971 os gêmeos Mario e Marcelo, cada vez mais a Beatriz se tornava uma lenda. Não se falava nada a respeito dela, era um segredo calado em nossos corações, só que havia as fotografias, um vestidinho rosa, um xale e num jazigo bem distante uma plaquinha com o nome “Beatriz Camargo Magano”. Não havia duvida, ela esteve aqui, e mesmo longe nunca deixou de pertencer a nossa família.
Esse ano de 2011, pela primeira vez, meu pai exteriorizou essa dor, como se em fim pudesse falar para nós um pouco da Beatriz. Fomos tomados por um sentimento forte. Por que não trazer os restos mortais da Bea para perto da minha mãe, falecida em 2009? Minha irmã Bebel entrou em contato com o cemitério de Igarapava e ficamos sabendo que precisaríamos da autorização da família do tio Gilberto, já falecido, então nos comunicamos com Jõao Samuel, seu filho. Ele que mora em Igarapava prontamente se solidarizou e já estávamos providenciando o translado da Beatriz para que ela viesse para bem perto de nós. Só que a noticia nos calou, não havia mais nada em seu cachãozinho, apenas aquela plaquinha com seu nome.
Um dia desses, meu pai entrou em seu quarto, ficou parado por uns momentos, e disse: “A Beatriz sorriu e acenou para mim”. Ele que sempre foi cético, nunca viu vultos ou imagens, me perguntou: “Será que foi minha imaginação?”. Não sei responder, apenas indagar...Faz 52 anos da morte de minha irmã, nesse ano ela foi tão falada, esteve tão presente...penso que enfim a desenterramos e agora Bea está mais feliz, pois ela já não é mais uma dor e sim um anjo que olha por nós.  E como bem disse minha filha, Ana Maria, o sorriso que ela deu para o meu pai veio mostrar que não há distância que nos separe, ela está aqui, bem pertinho, do nosso lado.
P.s. Agradeço o carinho do João Samuel que quando nos ligou e nos deu a notícia, comovido, se sentiu frustrado, pois ele queria nos trazer a Bea. Obrigada ao Ricardo e funcionários da Prefeitura de Igarapava, que com muito carinho lutaram para que nosso desejo pudesse acontecer.


4 comentários:

  1. Lindo Clo....
    Quantas histórias estão por trás das pessoas, quantas estão dentro das pessoas...
    Delicia essa oportunidade que nós (me incluo já que tb virei escriba...) temos de colocar pra fora, prestar homenagens, ou simplesmente relembrar com carinho!
    Parabens, muito comovente!

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  2. Realmente bem tocante!
    Lembranças gravadas na alma e resgatadas quando assim deseja o coração!

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  3. Idely e Ligia, tem sentimentos que compartilhamos apenas pelo olhar e ele existe e um dia a gente precisa desabafar.
    Ligia, gostaria de te convidar a entrar no facebook...é um espaço muito bacana para gente se comunicar e encontrar pessoas queridas.
    Um beijo grande a vocês amigas.

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  4. Boa noite Clotilde.
    Já participo do facebook há um tempinho.
    Acabo de lhe mandar um convite.
    Obrigada pela lembrança.
    Beijo e boa semana.

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