Eu estava de volta no tempo. Em cima da charrete do seu Olimpio cantando Aldila, era a princesa em sua carruagem guiada por cavalos brancos. Era a dona do mundo, criando sonhos e inventando histórias.
Em plena rua de paralelepípedos, um céu azul, uma estação de trens e eu, cantando como se fosse uma artista de filme. Cheia de alegria de menina, fazia viagens pelo mundo.
Quando voltava do passeio, já em casa, sentava no jardim e roubava uma rosa do canteiro. Havia vários pés de rosas: brancas, vermelhas, perfumadas e lindas. Gostava principalmente das vermelhas, retirava pétala por pétala, e colocava em minhas unhas, como se fossem unhas postiças.
Junto ao jardim, um escritório. Lá, ficava horas olhando os livros do meu pai, achava lindo o colorido de suas capas, imaginava que todos eram vestidos, meus vestidos. Eram modelos concretos que eu mesma desenhava, sonhando acordada de olhos abertos. Eram cheios de detalhes delicados como: laços, brilhos, rendas e cetim.
Todas as minhas bonecas tinham ‘roupas de bonecas’, isso mesmo, ‘de bonecas’ pois eram bem cuidadas, sentadinhas, comportadinhas, cheias de graça ...minhas filhinhas. Era comum abrir uma espiga de milho, afinal os cabelinhos do milho seriam lindas perucas para as minhas bonecas carecas, elas adoravam.
Gostava de ter meus pais por perto, me sentia segura, protegida. Meu mundo era diferente, achava que Deus tinha feito o universo só para mim... Naquela estrada do passado, de quando eu era criança, sabia que era realmente feliz!
Veio em minha memória uma historinha contada pela minha mãe. Uma rata mãe fala para seu ratinho; “cuidado com o mundo, ele é perigoso!” O ratinho quer saber o porquê?, então a mãe rata explica; “lá fora de casa tem um bicho horroroso, cruel, que mata sem dó nem piedade.” O ratinho ficou muito assustado, todo arrepiado. Sua mãe, achando melhor poupá-lo um pouco, lhe disse; “Filho, há também um outro bicho que é muito inofensivo, esse não vai te fazer nenhum mal. Também existem coisas boas nesse mundo...” O ratinho aliviado, foi brincar com os outros ratinhos.
Saiu de sua toca e deu de cara com uma galinha, ele a achou muito feia e saiu correndo. Quase do outro lado do muro e totalmente relaxado, o ratinho suspirou aliviado. Mais adiante, ficou encantado com o que viu: um gato lindo e peludo. Esse sim poderia ser seu amigo. Era bonito, não foi essa a recomendação da mãe?, então, coitadinho do ratinho, cometeu o maior e único erro de sua vida, virou o almoço daquele felino caçador.
Quando estamos dentro do nosso mundo, estamos guardados e longe do que não conhecemos, porém, existe além do jardim, um outro universo no qual descobri que sou apenas um figurante. Precisamos sonhar, é fato, e os sonhos não envelhecem, mas nós sim, crescemos e envelhecemos.

Parabéns pelo seu primeiro texto postado. Sei que vem muitas outras postagens, vou aguardar...O RG 9.000 promete!
ResponderExcluirbeijos,
Lu